As usinas do Banco Master: Gilmar Mendes, o filho de Nunes Marques e o caso Alcídia
Mensagens do celular de Daniel Vorcaro revelaram uma reunião de Gilmar Mendes com o dono do Banco Master e indícios de pagamentos ligados ao filho de Nunes Marques, em meio a um julgamento bilionário sobre indenizações a usinas do setor sucroalcooleiro no STF.
Apuração em andamento — nenhuma conclusão definitiva.
Linha do tempo
Sessão virtual (9 a 20/2) registra Nunes Marques como impedido no caso da Destilaria Alcídia, por ele ter julgado o mesmo processo em 2018 como juiz do TRF-1
Daniel Vorcaro e advogados do Banco Master se reúnem com Gilmar Mendes no gabinete do ministro no STF, às 18h
Segunda Turma do STF julga o caso Alcídia 3 a 2 a favor da usina; Nunes Marques dá o voto de desempate após reverter seu próprio impedimento; operador do Master escreve "Dominado aqui" ao enviar o contato do filho do ministro a Vorcaro
indício em mensagem de celular periciada pela PF, não conclusão oficial da corporação nem decisão do STF sobre o fato
Segunda Turma rejeita recurso da União contra a decisão da Alcídia, mantendo o resultado 3 a 2; Gilmar Mendes e André Mendonça voltam a ficar vencidos
Reportagem baseada em dados do Coaf revela que a consultoria Consult Inteligência Tributária, paga por Master e JBS, repassou R$ 281 mil a Kevin Marques, filho de Nunes Marques
Gilmar Mendes confirma publicamente o encontro de abril de 2024 com Vorcaro, após a PF enviar a íntegra do celular do banqueiro aos gabinetes de ministros do STF
Novas mensagens do celular de Vorcaro mencionam repasses mensais de R$ 500 mil a Kevin Marques; Nunes Marques declara que o filho "nunca prestou nenhum serviço ao banco e nunca foi remunerado pelo banco"
indício em mensagem de celular periciada pela PF, não conclusão oficial da corporação nem decisão do STF sobre o fato
Planilha atribuída a Fabiano Zettel, citada em reportagem, lista R$ 1 milhão destinado a Chiquinho Feitosa, ex-cunhado de Gilmar Mendes; imprensa descreve contrato paralelo de R$ 500 mil mensais entre Feitosa e uma empresa do ecossistema Master
Gilmar Mendes apresenta questão de ordem propondo levar ao plenário do STF o julgamento sobre indenizações a usinas do setor sucroalcooleiro (ARE 1.312.127)
Gilmar Mendes determina o envio do caso ao plenário; no mesmo dia, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocola pedido de impeachment contra Nunes Marques citando o voto na Alcídia
pedido de parlamentar de oposição, não decisão de qualquer órgão julgador
Este caso cruza dois nomes que a cobertura do Banco Master já havia tratado separadamente: Gilmar Mendes, que confirmou ter recebido Daniel Vorcaro em seu gabinete antes de um julgamento bilionário, e Kássio Nunes Marques, cujo filho aparece em mensagens do celular do banqueiro associado a repasses financeiros. O elo entre os dois é um único processo — a disputa sobre indenizações a usinas do setor sucroalcooleiro — e um único banco credor. O pano de fundo mais amplo da relação entre ministros do STF e a órbita de Vorcaro, incluindo a passagem de Dias Toffoli pela relatoria do inquérito e as mensagens com Alexandre de Moraes, está coberto nos casos “Toffoli, o resort da família e a saída da relatoria do caso Master” e “Mensagens entre Moraes e Vorcaro reveladas por Mendonça”. Este texto cobre especificamente o episódio das usinas e o que se sabe, até a publicação, sobre o papel de Gilmar Mendes e do filho de Nunes Marques nele.
Usinas de açúcar e álcool, não energia solar ou eólica
É preciso uma ressalva de origem antes de entrar nos fatos: as “usinas” no centro deste caso são usinas do setor sucroalcooleiro — produtoras de açúcar e álcool (etanol), algumas delas também cogeradoras de eletricidade a partir do bagaço da cana —, não usinas solares ou eólicas. A disputa judicial trata de pedidos de indenização que essas empresas movem contra a União por prejuízos que alegam ter sofrido com o tabelamento de preços do extinto Instituto do Açúcar e do Álcool (IAA), nas décadas de 1980 e 1990. Uma das ações mais citadas no noticiário, a da Destilaria Alcídia (grupo Atvos), e a mais recente, movida contra a União com a Raízen Energia como parte interessada, somam-se a dezenas de processos semelhantes. Segundo a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 e estimativas da Advocacia-Geral da União (AGU) citadas pelo ConJur, o risco fiscal agregado do tema para a União chega a R$ 103,4 bilhões.
O interesse do Banco Master nesses processos não é hipotético: o banco comprou, no mercado secundário, precatórios (títulos de dívida pública já reconhecidos pela Justiça) de empresas do setor, numa carteira que reportagens estimam em mais de R$ 10 bilhões no balanço da instituição antes de sua liquidação extrajudicial pelo Banco Central, em novembro de 2025. Uma decisão favorável às usinas infla o valor desses títulos; uma decisão contrária à União, o inverso.
Gilmar Mendes, o ex-cunhado e a reunião de abril de 2024
Em 11 de abril de 2024, às 18h, Daniel Vorcaro e advogados do Banco Master foram recebidos por Gilmar Mendes em seu gabinete no STF. O ministro confirmou publicamente o encontro em setembro de 2026, depois que a Polícia Federal enviou a íntegra do celular de Vorcaro aos gabinetes de ministros da Corte. Segundo Gilmar, o encontro tratou da disputa sobre indenizações a usinas, mas não alterou seu voto: o ministro afirma ter se posicionado contra o pagamento dos precatórios “em todos os casos” que julgou sobre o tema — o que se confirma no resultado dos dois julgamentos específicos da Alcídia descritos abaixo, em que ficou vencido ao lado de André Mendonça.
A reunião foi articulada, segundo reportagens, por Francisco Feitosa de Albuquerque Lima, o “Chiquinho Feitosa”, então cunhado de Gilmar Mendes (irmão de Guiomar Feitosa, de quem o ministro se divorciou formalmente em novembro de 2025). Mensagens atribuídas a Feitosa o mostram recomendando a Vorcaro se aproximar do ministro, chamando a aproximação de “importante para o futuro”. Uma planilha atribuída a Fabiano Zettel — cunhado de Vorcaro, preso em dezembro de 2025 no âmbito da Operação Compliance Zero — lista R$ 1 milhão destinado a “FA (Chiquinho)” como pagamento pendente; reportagens também descrevem um contrato paralelo, de cerca de R$ 500 mil mensais, entre Feitosa e uma empresa (Super Empreendimentos) associada ao ecossistema do Master. Feitosa confirmou publicamente a existência de algum contrato, sem detalhar valor ou duração.
O gabinete de Gilmar Mendes afirma não ter conhecimento de tratativas entre Feitosa e Vorcaro e que o ministro não foi procurado por ele sobre os assuntos em questão — distinguindo, nesse ponto, a conduta do ex-cunhado da conduta do próprio ministro. Não há, até a publicação deste caso, qualquer apontamento de que o conteúdo da reunião de abril de 2024 tenha influenciado os votos de Gilmar Mendes — ao contrário, o resultado registrado nos autos é de voto contrário ao interesse do Master nas duas vezes em que o tema foi a julgamento.
O voto de Nunes Marques e o “Dominado aqui”
A ação da Destilaria Alcídia contra a União chegou ao STF depois de passar, em outubro de 2018, pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região (TRF-1), com Nunes Marques entre os julgadores daquela instância — ele presidiu a sessão e assinou o acórdão. Por isso, quando o processo entrou em pauta na Segunda Turma do STF, numa sessão virtual realizada entre 9 e 20 de fevereiro de 2024, o sistema da Corte registrou automaticamente “impedido o ministro Nunes Marques”. Em março de 2024, por despacho próprio, o ministro reverteu o registro, classificando-o como “equívoco da assessoria do gabinete” e declarando-se apto a votar — sem que a reportagem disponível até a publicação deste caso tenha localizado a data exata desse despacho.
Habilitado, Nunes Marques participou do julgamento em 1º de outubro de 2024. A votação, que estava empatada em 2 a 2 entre os demais ministros da Turma (Edson Fachin e Dias Toffoli a favor da Alcídia; Gilmar Mendes e André Mendonça contra), foi decidida por seu voto, fechando o placar em 3 a 2 a favor da usina — e, portanto, do interesse do Master como detentor dos precatórios do setor. Minutos depois do resultado, segundo mensagens do celular de Vorcaro periciadas pela Polícia Federal, o então diretor jurídico do banco, Luiz Rennó, escreveu “Ganhamos Alcídia” e, em seguida, encaminhou a Vorcaro o contato de “Kevin Marques” — identificado nas mensagens como filho do ministro — com a expressão “Dominado aqui”. Em junho de 2025, a Segunda Turma rejeitou um recurso da União contra essa decisão, mantendo o resultado de 3 a 2 com os mesmos votos vencidos de Gilmar Mendes e Mendonça.
Nunes Marques afirmou, em sessão do STF, não ter votado em processos de interesse do Master “em razão de proximidade” com Vorcaro e negou qualquer influência do banqueiro sobre sua atuação. O episódio da reversão do impedimento é hoje o centro de um pedido de impeachment contra o ministro (ver abaixo); não há, até a publicação deste caso, decisão de qualquer órgão sobre a regularidade dessa reversão.
O filho, a consultoria e a mesada
Kevin de Carvalho Marques, filho de Nunes Marques e advogado especializado em direito tributário, é sócio do Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT), que compartilha endereço em Alphaville com a empresa Consult Inteligência Tributária. Uma reportagem de março de 2026, baseada em dados do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e publicada originalmente pelo jornal O Tempo, revelou que a Consult recebeu R$ 18 milhões somados do Banco Master (R$ 6,6 milhões) e da JBS (R$ 11,3 milhões) entre agosto de 2024 e julho de 2025 — e que, no mesmo período, repassou a Kevin R$ 281 mil em cerca de dez transferências. O faturamento declarado da Consult, de apenas R$ 25,5 mil, levou o Coaf a classificar as transações como “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa.
Em setembro de 2026, novas mensagens do celular de Vorcaro, extraídas pela PF, acrescentaram outro elemento: diálogos entre Vorcaro e Rennó mencionando repasses mensais de “500 mil mês” associados a Kevin Marques, com uma referência datada de julho de 2025 (“Esse aqui — 500 mil mês — mantém?”) e outra de agosto do mesmo ano. O valor de R$ 500 mil mensais não corresponde ao total de R$ 281 mil que a própria Consult confirma ter pago a Kevin ao longo de um ano — uma diferença que a reportagem não explica e que o Observatório não conseguiu reconciliar com as fontes disponíveis até a publicação deste caso.
Kevin Marques nega qualquer relação entre o IPGT e o Master ou a JBS, e afirma ter recebido os valores da Consult exclusivamente como remuneração por “serviços de assessoria jurídica” tributária, sem vínculo com o STF. Nunes Marques declarou, em sessão da Corte, que o filho “nunca prestou nenhum serviço ao banco e nunca foi remunerado pelo banco” — uma afirmação que não se refere aos pagamentos da Consult (cuja origem o ministro não contesta), mas à tese de pagamento direto do Master ao filho, que nem a reportagem nem a PF, até a publicação deste caso, documentam como fato estabelecido.
Setembro de 2026: plenário e pedido de impeachment
A escalada de revelações sobre o caso das usinas levou Gilmar Mendes a agir institucionalmente. Em 22 de setembro de 2026, o ministro apresentou uma questão de ordem no processo ARE 1.312.127 — um recurso da União contra a Raízen Energia e outra empresa do setor — propondo que o tema fosse decidido pelo plenário da Corte, e não mais pela Segunda Turma. Em 24 de setembro, Gilmar formalizou o envio ao plenário, com julgamento marcado para sessão virtual entre 25 de setembro e 2 de outubro de 2026. Segundo o ministro, o objetivo declarado é “uniformizar o entendimento” sobre a aplicação de um precedente da própria Corte a condenações já transitadas em julgado, calculadas a partir de um estudo genérico da Fundação Getulio Vargas (FGV) — uma justificativa técnica que não menciona, no texto da decisão, as suspeitas sobre Nunes Marques.
No mesmo dia 24 de setembro, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) protocolou um pedido de impeachment contra Nunes Marques, atribuindo-lhe crime de responsabilidade pela atuação no caso Alcídia — citando especificamente a reversão do impedimento registrado em fevereiro de 2024 e o voto de desempate de 1º de outubro daquele ano — e pedindo sua inabilitação para função pública por oito anos. É um pedido de um parlamentar de oposição, não uma decisão de qualquer órgão julgador: pedidos de impeachment contra ministros do STF são dirigidos ao Senado, que historicamente arquiva a quase totalidade deles sem abrir processo.
O que ainda não está confirmado
Até a publicação deste caso, não há decisão do STF, do Senado ou de qualquer órgão de controle sobre o mérito das suspeitas aqui descritas. Em síntese, o que é fato documentado e o que permanece como indício ou alegação de parte:
- Documentado: a reunião de 11 de abril de 2024 entre Vorcaro e Gilmar Mendes; os votos de Gilmar contrários ao interesse do Master nos dois julgamentos da Alcídia (outubro de 2024 e junho de 2025); a reversão do impedimento de Nunes Marques em março de 2024 e seu voto de desempate em outubro de 2024; os repasses de R$ 18 milhões de Master e JBS à Consult Inteligência Tributária e de R$ 281 mil da Consult a Kevin Marques, confirmados pela própria empresa.
- Indício em mensagem de celular, não conclusão oficial da PF ou decisão judicial: a mensagem “Dominado aqui” associada ao voto de Nunes Marques; as referências a “500 mil mês” ligadas a Kevin Marques; a planilha com R$ 1 milhão endereçado a Chiquinho Feitosa.
- Alegação de parte, não fato estabelecido: a tese, defendida no pedido de impeachment do senador Alessandro Vieira, de que o voto de Nunes Marques teria sido determinado pelos pagamentos à Consult — hipótese ainda não confirmada por decisão judicial ou investigação concluída.
Gilmar Mendes, Nunes Marques, Kevin Marques e Chiquinho Feitosa negam, cada um a seu modo, qualquer irregularidade. O Observatório acompanhará o julgamento no plenário do STF, o desfecho do pedido de impeachment no Senado e eventuais novas peças da investigação da Polícia Federal sobre o celular de Vorcaro.
Fontes
- Gilmar Mendes propõe levar caso de usinas ao plenário após mensagens de Vorcaro sobre Nunes Marques — CartaCapital, 2026-09-22
- Gilmar admite encontro com Vorcaro e destaca voto contrário ao Master em causa de até R$ 145 bilhões — CartaCapital
- Gilmar diz que sua posição incomodou o dono do Banco Master — Poder360, 2026-09-18
- Nunes Marques diz que filho nunca prestou serviço ao Master — Poder360, 2026-09-15
- Gilmar leva ao Plenário do Supremo disputa sobre indenizações a usinas — ConJur, 2026-09-24
- Filho de Nunes Marques teria recebido R$ 500 mil do Master, aponta PF — Gazeta do Povo, 2026-09-15
- Após caso Vorcaro, Gilmar propõe levar disputa bilionária com usinas ao plenário — Gazeta do Povo
- Consultoria ligada ao Master e à JBS contratou filho de Nunes Marques — Metrópoles, 2026-03-19
- Diálogos de Vorcaro citam suposta mesada de R$ 500 mil para filho de Nunes — CNN Brasil, 2026-09-15
- Conversas de Vorcaro citam filho de Nunes Marques e pagamento de R$ 500 mil — Correio Braziliense, 2026-09
- Caso Master: planilha cita R$ 1 milhão para ex-cunhado de Gilmar — Revista Oeste, 2026-09-21
- Senado: Vieira pede impeachment de Nunes Marques no STF — Imirante.com, 2026-09-24
- Alessandro Vieira pede impeachment de Nunes Marques — O Antagonista
- "Dominado aqui": os indícios que ligam Nunes Marques ao caso Master — Painel Político, 2026-09-18
- Mensagens de Vorcaro citam filhos de Luiz Fux e Nunes Marques, diz PF — Band
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