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Observatório do STF
judiciário às claras
Em apuração

Mensagens entre Moraes e Vorcaro reveladas por Mendonça

Mendonça tornou públicas mensagens e encontros entre Moraes e Vorcaro, e contratos somando R$ 180 milhões. Em 15/9, STF fica 3 a 4 contra reunir os casos e Dino pede vista (até 90 dias); Fachin retira da pauta, sem nova data, a sessão de 23/9 sobre a conduta de Mendonça.

Apuração em andamento — nenhuma conclusão definitiva.

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Linha do tempo

  1. Mendonça torna públicas as mensagens entre Moraes e Vorcaro e os contratos do escritório de Viviane Barci de Moraes

  2. Atualização: segundo contrato, mais mensagens e sessão do plenário marcada para 15/9

    elementos de reportagens jornalísticas sobre a apuração em curso, não fatos estabelecidos pelo tribunal

  3. Escalada institucional: disputa sobre o comando da apuração e da Polícia Federal

    decisões monocráticas e pedidos dentro de uma disputa institucional em curso, não julgados pelo plenário

  4. Sigilo, ida e volta: levantamento parcial do sigilo do caso Master

  5. Direto do sistema do STF: conferência dos andamentos processuais oficiais

    conferido diretamente no portal do STF pelo Observatório

  6. Mais 38 processos sem sigilo, incluindo a investigação sobre o Dark Horse

    investigações em curso, com direito à ampla defesa dos citados, não julgadas pelo STF

  7. Sigilo do Dark Horse cai por completo

  8. Véspera da sessão de 15/9: pronunciamentos e últimos ofícios

  9. Sessão de 15/9: 3 a 4 contra a questão de ordem de Gilmar, bate-boca e pedido de vista de Dino

    sessão suspensa por pedido de vista — nenhum mérito julgado; placar corrigido em 03/10/2026 (ver nota na seção correspondente)

  10. Fachin retira a sessão de 23/9 da pauta, sem nova data

Em 1º de setembro de 2026, o ministro André Mendonça — relator dos inquéritos do Banco Master — tornou públicas mensagens trocadas entre o ministro Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco. As mensagens foram extraídas pela Polícia Federal do celular de Vorcaro, que segundo a apuração fotografava anotações no bloco de notas do aparelho e as enviava como imagens de visualização única, num método que teria como objetivo dificultar o rastreamento pela PF. A perícia identificou esse padrão em 52 ocasiões entre 28 de outubro e 17 de novembro de 2025 — dia em que Vorcaro foi preso pela primeira vez —, com um intervalo médio de 11 a 35 segundos entre a redação da nota e o envio da imagem pelo WhatsApp.

Entre as mensagens reveladas, uma trocada em 15 de novembro de 2025 — dois dias antes da prisão de Vorcaro — mostra o banqueiro perguntando a Moraes: “Acha que segunda já tenho que estar fora?”.

Separadamente, veio à tona um contrato entre o Banco Master e o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro: R$ 3,6 milhões por mês, ao longo de três anos (soma aproximada de R$ 131 milhões), assinado em 23 de janeiro de 2024. O valor e o momento do contrato levantaram questões sobre eventual conflito de interesse.

Direto dos documentos primários

O sigilo levantado em 1º de setembro tornou público o próprio relatório da PF — 218 páginas, produzido a partir da perícia no celular de Vorcaro — e seus anexos (contratos, prints de conversa, despachos). O Observatório foi direto a essas peças, publicadas com dados pessoais sensíveis de terceiros já tarjados por veículos que as obtiveram. Alguns pontos que não apareciam nos resumos anteriores:

  • A fuga. Vorcaro foi preso em 17 de novembro de 2025 no Aeroporto Internacional de Guarulhos quando tentava embarcar num jato particular com destino a Dubai.
  • “Gratidão da minha vida a você”. Três dias antes da prisão, em 14 de novembro, Vorcaro escreveu a Moraes: “Estamos juntos sempre. Você sabe que tenho gratidão da minha vida a você. Toda minha família, funcionários, parceiros, amigos que dependem de nós têm uma dívida de vida contigo e com a sua família.” Dois dias depois, em 16 de novembro, pediu um encontro rápido — um dia antes de ser preso.
  • Cartões de crédito para os filhos do ministro. Em outubro de 2025, a pedido do administrador do escritório Barci de Moraes, o Banco Master emitiu cartões de crédito com limite de R$ 300 mil cada para Giuliana e Alexandre Barci de Moraes, filhos de Alexandre de Moraes. Numa mensagem recuperada pela PF, uma executiva do Master escreveu a Vorcaro pedindo autorização; ele respondeu “ok”. O escritório Barci de Moraes, em nota, afirmou que os cartões “jamais foram usados por qualquer advogado ou pessoa do escritório”.

Como em todo o restante deste caso, essas informações vêm de um relatório policial ainda não julgado pelo STF — a própria PF classifica a análise como “não exaustiva”, já que foi produzida em 72 horas, e boa parte das conversas só preserva o lado de Vorcaro, por causa do recurso de visualização única do WhatsApp; não se sabe o que Moraes respondeu.

Atualização — 10 de setembro de 2026

Reportagens publicadas nos dias seguintes ampliaram o que se sabe sobre a relação entre Moraes e Vorcaro:

  • Um segundo contrato. Além do contrato de aproximadamente R$ 130 milhões já mencionado, veio à tona um segundo contrato — de R$ 50 milhões — entre o escritório de Viviane Barci de Moraes e a Viking Participações, ligada a Vorcaro. Segundo a apuração, Vorcaro chegou a tentar quitar parte desse valor oferecendo duas aeronaves. Somados, os dois contratos chegam a aproximadamente R$ 180 milhões.
  • Mais mensagens, período posterior. Além das 52 ocasiões de outubro–novembro já mencionadas, reportagens identificaram uma leva seguinte: entre 12 e 17 de dezembro de 2025 — depois, portanto, da prisão de Vorcaro em 17 de novembro —, o ex-banqueiro enviou mais 28 mensagens para o mesmo número atribuído a Moraes, pelo mesmo método de visualização única.
  • Metadados de documento. Reportagens exibiram metadados de um arquivo em PDF que teria como último editor um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes”.
  • Sessão do plenário marcada para 15 de setembro. O presidente do STF, Edson Fachin, convocou uma sessão extraordinária do plenário para o dia 15 de setembro de 2026, às 10h, a pedido do ministro André Mendonça — a primeira vez que o plenário se reúne para decidir se abre um inquérito contra um ministro da própria Corte. A convocação veio depois de decisões liminares de Mendonça e do ministro Flávio Dino que aprofundaram a crise institucional.

Nenhum desses pontos foi confirmado ou julgado pelo STF até a publicação desta atualização — são elementos de reportagens jornalísticas sobre a apuração em curso, não fatos estabelecidos pelo tribunal.

Escalada institucional — noite de 10 de setembro de 2026

Nas horas antes da sessão de 15/9, a crise ganhou uma dimensão além do conteúdo das mensagens: uma disputa sobre quem comanda a apuração e a Polícia Federal.

  • Fachin pede que Mendonça levante o sigilo de todo o caso Master. Como presidente do STF, Fachin não pode determinar isso diretamente — quem decide é o relator, Mendonça — mas solicitou que ele torne públicos todos os procedimentos do caso, com exceção de diligências cujo sigilo seja “imprescindível”. Mendonça atendeu ainda na noite do dia 10, levantando o sigilo da Petição 15.556 — mas essa não foi a palavra final: ver a seção abaixo, “Sigilo, ida e volta — 11 de setembro”.
  • Diretores da PF afastados e depois reintegrados, em menos de 24 horas. Mendonça determinou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e do diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada, e abriu investigação sobre a atuação dos dois, afirmando ter sido “monitorado de maneira ilícita” pela PF. A Segunda Turma do STF se reuniu para validar ou não a medida: o decano Gilmar Mendes pediu vista, mas os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques anteciparam voto e formaram maioria a favor de manter o afastamento; Dias Toffoli se declarou impedido por sua própria relação com o caso Master (ver seção abaixo). No dia seguinte, o ministro Flávio Dino anulou monocraticamente essa decisão do colegiado e reconduziu Andrei Rodrigues ao cargo — usando, segundo reportagem da revista Veja (edição 3012, 11/9), o mesmo argumento de risco eleitoral que Gilmar havia esboçado. Fachin, na quarta-feira seguinte, suspendeu as decisões de Mendonça e de Dino e convocou o plenário.
  • Decisões envolvendo ministros passam a depender da presidência. Fachin determinou que qualquer decisão que envolva ministro do STF neste caso precisa passar por ele antes.
  • Pedido de investigação contra Mendonça. Segundo reportagens, Moraes havia pedido que Mendonça fosse investigado, protocolando o pedido no inquérito das fake news (do qual é relator). Fachin retirou esse pedido do inquérito na sexta-feira anterior (04/09) e cobrou explicações dos envolvidos.
  • PGR aponta “dupla nulidade” — e os dois fundamentos jurídicos são específicos. O procurador-geral da República, Paulo Gonet, apontou dupla nulidade no processo conduzido por Mendonça, com base em dois argumentos distintos, segundo reportagem da Agência Pública: primeiro, que um magistrado não pode investigar uma causa da qual ele próprio faz parte — princípio da imparcialidade; segundo, que investigar um ministro do STF exige aprovação do Plenário, não decisão individual do relator. A mesma reportagem registra que delegados da Polícia Federal convocados para a reunião de 24/8 com Mendonça — a origem do despacho investigativo, citado na seção sobre o relatório da PF mais abaixo — teriam sido chamados a princípio para tratar de outro assunto e diante de um mandado de investigação inesperado; a PGR respondeu ao levantamento do sigilo em menos de doze horas, em 1º de setembro.

Como nos pontos anteriores, nada disso foi julgado pelo plenário até a publicação desta atualização — são decisões monocráticas e pedidos dentro de uma disputa institucional em curso, sujeitos à sessão de 15/9. O pronunciamento de Moraes sobre o caso é esperado para a véspera da sessão (14/9), segundo a imprensa — reagendado: a fala estava inicialmente prevista para quinta-feira (10/9), mas Moraes optou por adiá-la depois que a PF deflagrou, na mesma manhã, a Operação Make Up (mandados de busca sobre o desvio de emendas para o Dark Horse) — avaliação, segundo pessoas próximas ao ministro citadas pela imprensa, de que o momento não seria bom.

Sigilo, ida e volta — 11 de setembro de 2026

O levantamento de sigilo prometido na noite do dia 10 não encerrou a disputa — pelo contrário, expôs uma nova frente de desacordo sobre o alcance da transparência:

  • O que foi liberado. Mendonça levantou o sigilo de 15 procedimentos vinculados à Petição 15.556, incluindo os inquéritos 5.026 e 5.035, e determinou o envio de cópia integral dos autos, em HD próprio, à Presidência e aos gabinetes dos demais ministros. Entre as frentes que passaram a ter informação pública estão a relação Master–escritório de Viviane Barci de Moraes, o vazamento de dados sigilosos e a atuação de dois núcleos apontados pela PF — chamados “A Turma” e “Os Meninos” — investigados por intimidação, acesso clandestino a informações, monitoramento e ataques cibernéticos; “Os Meninos” é descrito como um braço digital que teria atuado na derrubada de perfis que criticavam Vorcaro e o Master. Outra frente liberada apura se influenciadores foram contratados para divulgar conteúdo favorável a Vorcaro e contrário ao Banco Central.
  • O que continuou sob sigilo — até esta sexta. Na noite de 10/9, a apuração sobre o financiamento do filme Dark Horse, biografia de Jair Bolsonaro cujo custeio por Vorcaro já havia sido mencionado por Alfredo Gaspar (vice na chapa de Flávio Bolsonaro) em entrevista à revista Veja, permanecia sigilosa. Isso mudou horas depois — ver a seção abaixo, “Mais 38 processos sem sigilo”.
  • Moraes reclama que a liberação foi seletiva. Nesta sexta-feira (11/9), Moraes enviou ofício a Fachin pedindo o fim total do sigilo do caso. Segundo o ministro, os 15 procedimentos liberados não representam a totalidade do que está vinculado à Petição 15.556, e mesmo dentro deles 180 documentos continuaram protegidos — o que, em suas palavras, “dificulta a análise probatória”. Moraes também citou duas petições associadas especificamente ao seu caso, as PETs 16.704 e 16.662, ao dizer que Mendonça, “diretamente interessado no julgamento” de ambas, “selecionou subjetivamente” o que tornar público.
  • Fachin dá 24 horas. Ainda na sexta-feira, acolhendo pedido do vice-procurador-geral da República — que classificou a liberação parcial como uma “ideia equivocada de transparência” — e ofícios semelhantes de Moraes e Cristiano Zanin, Fachin determinou que Mendonça envie, em até 24 horas, todos os procedimentos ligados à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero aos demais ministros, ressalvadas apenas diligências em andamento cuja divulgação possa prejudicar a apuração.

Como em toda a cobertura deste caso, o volume de sigilo levantado ou mantido é, em si, uma disputa em curso dentro do STF — não um fato julgado pela Corte. O Observatório segue acompanhando até a sessão de 15/9.

Direto do sistema do STF — 11 de setembro de 2026

Até aqui, os detalhes desta cobertura vinham de reportagens que citavam despachos e decisões. O Observatório consultou diretamente os andamentos públicos de três processos no site oficial do STF — PET 16.662 (relatoria de Mendonça), PET 16.704 (aberta pela Presidência) e SL 1.946 (Suspensão de Liminar) — para conferir o texto exato de decisões já noticiadas e localizar dados que não haviam aparecido nas reportagens consultadas pelo Observatório.

Uma ressalva sobre o que dá para ver. O portal do STF classifica os três processos como “público”, mas isso libera apenas certidões e atos decisórios — despachos, decisões, atas de julgamento. As petições e os anexos completos (“peças eletrônicas”) exigem credenciamento e-STF com certificado digital ICP-Brasil, mesmo em processos públicos. O que segue vem da aba “Andamentos” de cada processo, que reproduz trechos literais de despachos — não dos documentos anexados a eles.

  • Quem pediu a suspensão da decisão de Mendonça foi a União, não a Presidência por iniciativa própria. A SL 1.946 foi protocolada em 8/9 pela Advocacia-Geral da União, pedindo a suspensão da decisão de Mendonça na PET 16.662. Fachin, como presidente, decidiu o pedido no dia seguinte — foi essa decisão, e não um ato espontâneo da Presidência, que suspendeu a decisão de Mendonça, sobrestou a PET 16.662 e também suspendeu uma decisão do ministro Flávio Dino (na PET 16.669, de relatoria dele) proferida no mesmo dia.
  • A decisão de Fachin foi mais ampla do que as duas decisões suspensas. Além de suspender Mendonça e Dino, Fachin determinou “a suspensão de todo e qualquer procedimento que verse sobre potencial investigação em face de integrantes deste Supremo Tribunal Federal” até a sessão de 15/9, e deu ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, 48 horas para se manifestar antes de a Presidência avaliar sua permanência no cargo — à luz do art. 33, parágrafo único, da Lei Orgânica da Magistratura, dispositivo que rege investigação de autoridades com foro no STF.
  • Uma apuração sobre a própria condução do caso por Moraes já estava aberta desde 3 de setembro. A PET 16.704 nasceu de um despacho da Presidência determinando que a decisão de Moraes que originou o caso fosse destacada do Inq 4.781/DF e autuada à parte, para apurar, entre outros pontos, “eventuais indícios de que credenciais de acesso institucional tenham sido utilizadas para avaliar documento estritamente particular e de que informações sujeitas ao sigilo judicial foram reveladas a pessoa investigada” — sem, segundo o próprio despacho, prejulgar admissibilidade, regularidade ou mérito. Moraes, Mendonça, o procurador-geral Paulo Gonet e o diretor-geral da PF foram intimados a se manifestar em 5 dias úteis.
  • O voto da Segunda Turma, na íntegra. A ata de julgamento confirma o que a imprensa já noticiara: “Após o voto do Ministro André Mendonça (Relator) que referendava a decisão anteriormente proferida, pelos seus próprios fundamentos, no que foi acompanhado pelos Ministros Luiz Fux e Nunes Marques, pediu vista dos autos o Ministro Gilmar Mendes.” O despacho de Gilmar Mendes, de 8/9, registra a razão do pedido de vista nestes termos: “diante de elementos que apontam para a incompetência da Segunda Turma e do risco de decisões conflitantes sobre uma mesma matéria, pedi vista do processo para melhor exame dos autos.”
  • A lista exata dos procedimentos liberados. O despacho de Mendonça de 10/9 nomeia, além da própria Petição 15.556: Inq 5.026, Rcl 88.121, Pet 15.198, Inq 5.035, Pet 15.478, Pet 15.504, Pet 15.562, Pet 15.563, Pet 15.693, Pet 15.976, Pet 15.977, Pet 15.978, Pet 16.019 e Pet 16.662— 15 ao todo, incluindo a matriz, confirmando o número já noticiado. Um despacho da Presidência do dia anterior também confirma o nome dado a uma das frentes: “Operação Compliance Zero” é como o STF se refere oficialmente ao Inq 5.026.
  • Mendonça respondeu a Zanin nesta quinta-feira. Em despacho de 11/9, em resposta a ofício do ministro Cristiano Zanin perguntando sobre a disponibilidade de material, Mendonça afirmou que todos os procedimentos ligados ao julgamento de terça-feira “já tiveram seus sigilos levantados […] e estão integralmente disponibilizados aos gabinetes dos eminentes Ministros”. No mesmo despacho, esclareceu que uma cópia de segurança dos dados extraídos do celular de Vorcaro — entregue voluntariamente pela PF ao gabinete em março de 2026, segundo o Ofício nº 33-V/2026 — “permanece lacrada e intocada até o presente momento”, sob o lacre nº B0003311945. Moraes contestou as duas afirmações horas depois — ver a seção abaixo.

Nenhum desses despachos julga o mérito do caso — tratam de sigilo, competência e disputa entre gabinetes, questões preliminares à sessão de 15/9. Mas alguns detalhes aqui só existem porque os processos são, por regra, públicos: o dado de que foi a União, e não a Presidência por conta própria, quem pediu a suspensão da decisão de Mendonça, por exemplo, não havia aparecido nas coberturas consultadas pelo Observatório até a publicação desta atualização.

Mais 38 processos sem sigilo — noite de 11 de setembro de 2026

O prazo de 24 horas dado por Fachin (seção anterior) não esperou até o fim: ainda na sexta-feira à noite, Mendonça publicou uma nova manifestação levantando o sigilo de mais 38 processos ligados à Operação Compliance Zero — elevando para 53 o total de procedimentos tornados públicos desde 1º de setembro. O despacho, publicado no Diário de Justiça Eletrônico, lista os processos por número, sem detalhar do que trata cada um; quem deu esse detalhamento foi a imprensa, a partir de fontes na apuração.

  • Dark Horse deixa de ser só uma menção lateral. Entre os processos liberados está a investigação sobre o financiamento da cinebiografia de Jair Bolsonaro, que envolve o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Segundo reportagens que citam mensagens reveladas pelo The Intercept Brasil e apurações da Polícia Federal, Flávio teria atuado como contato direto com Vorcaro para pedir recursos para o filme — chegando a cobrar, em ligações telefônicas, o pagamento de R$ 134 milhões — verba que seria depois administrada nos Estados Unidos pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), irmão de Flávio.

  • Três outros políticos, três frentes diferentes. O mesmo lote de processos também destravou investigações envolvendo:

    • o senador Ciro Nogueira (PP-PI), sobre alegada atuação no Congresso em benefício do Master e de Vorcaro — a PF aponta repasses financeiros ao parlamentar, que ele nega;
    • o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL), sobre supostas inconsistências na transferência de R$ 3,6 bilhões do Rioprevidência (fundo de previdência dos servidores do estado) ao Banco Master;
    • o senador Jaques Wagner (PT-BA), sobre sua proximidade com Augusto Lima, ex-sócio do Master — a hipótese apurada é de vantagens indevidas via transferências a uma empresa de parentes do senador e a compra de um imóvel de alto padrão em Salvador.

    Nenhuma dessas quatro apurações foi confirmada ou julgada pelo STF — são investigações em curso, com direito à ampla defesa dos citados.

  • Por que agora. Quem pediu essa liberação foi o vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho: a lista enviada por Mendonça na noite anterior, segundo ele, “não se contêm grande parte dos procedimentos atualmente correlatos à investigação mais ampla da chamada Operação Compliance Zero” — o que, mesmo sem má-fé, “pode induzir à ideia equivocada de que a transparência que animou a medida proposta, perca, ao fim e ao cabo, o seu sentido último”.

  • Moraes contesta a versão de Mendonça sobre o material do celular de Vorcaro. Em ofício a Fachin, Moraes disse que os demais ministros continuam sem acesso integral aos documentos e classificou a liberação de Mendonça como um “levantamento seletivo e direcionado” feito para proteger, em suas palavras, “determinado grupo político” — sem identificar qual. Sobre a cópia de segurança do celular de Vorcaro que Mendonça descreveu como “lacrada e intocada” (ver seção anterior), Moraes argumentou que o lacre não é impedimento para o compartilhamento, “notadamente porque trata-se de cópia, o que não impõe risco à preservação da cadeia de custódia do material original”.

  • Gilmar Mendes pede que Fachin assuma a relatoria e questiona se a Pet 16.662 está madura para julgamento. Na noite de sexta, o decano do STF enviou ofício a Fachin pedindo o adiamento da sessão de 15/9 e que o caso de Moraes seja analisado em conjunto com o de Mendonça, “sob a coordenação da Presidência”. O argumento central não é sobre prazo, mas sobre a própria base processual: “Os autos se formaram a partir de informação de polícia judiciária que o próprio relator requisitou à Polícia Federal e a própria autuação registra tratar-se de feito instaurado ‘de ofício’, sem representação nos autos. Não há representação da autoridade policial e tampouco a Procuradoria-Geral da República, ao se manifestar, requereu ao Plenário qualquer providência, limitando-se a arguir a nulidade do relatório”. Por isso, escreveu, “não há, na Pet 16.662, definição adequada quanto aos próprios contornos processuais do feito, à identificação de quem ocupa a posição de investigado, ao objeto preciso da investigação, ao rito a ser observado e, em última análise, à questão madura que reclama pronunciamento do colegiado”. Gilmar sugeriu que o próprio Fachin assuma a relatoria, determine “saneamento e instrução” e só depois submeta o caso ao plenário — e que, se a sessão de terça for mantida mesmo assim, comece pelas preliminares, a começar pelo pedido de nulidade da PGR.

  • A defesa de Vorcaro pede filtro antes da publicação. O advogado de Daniel Vorcaro protocolou pedido a Fachin para que dados sensíveis sem relação com a investigação — fotos de familiares, mensagens com advogados protegidas por sigilo profissional — sejam triados antes da divulgação dos documentos.

Conferência cruzada com o portal do STF. O Observatório buscou, pelo número de cada processo citado no despacho de Mendonça e pelo nome das partes no buscador oficial do STF, confirmar diretamente duas das quatro frentes acima. Ciro Nogueira Lima Filho aparece como requerido em pelo menos quatro processos da lista liberada hoje — Pets 15.674, 15.855, 15.873 e 15.877, abertos entre março e abril de 2026, com mandados de intimação expedidos já em maio —, e um deles (Pet 15.855) também nomeia a empresa “Ciro Nogueira Comércio de Motocicletas Ltda.” como parte. Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima aparecem como investigados no Inq 5.050, aberto em maio de 2026 — um dos dois inquéritos que o próprio despacho de Mendonça lista como acréscimo dele, além do pedido do Vice-PGR. Ampliando essa checagem: dos processos da lista que ainda não tinham sido abertos por nós, a Pet 16.292 tem como requerido Eduardo Bolsonaro — a petição foi movida pelo senador Lindbergh Farias (PT-RJ) em junho de 2026 e redistribuída a Mendonça por prevenção. As Pets 16.229, 16.230, 16.344 e 16.346, também do lote de hoje, nomeiam como requeridos Augusto Ferreira Lima, Andrea Lima Novaes e Thiago Miranda Silva. Não localizamos, nos três processos que já acompanhamos no portal, o ofício de Gilmar Mendes à Presidência: pode não ter sido ainda publicado no andamento público, ou ter tramitado por canal interno sem autuação própria.

O Inquérito 5.070 é o Dark Horse — e tem uma lista de investigados maior do que qualquer reportagem publicou. Buscando pelo nome completo de Flávio Bolsonaro no cadastro do STF — “Flávio Nantes Bolsonaro”, não só “Flávio Bolsonaro” — o Observatório localizou dez processos em que ele é parte, um deles o próprio Inq 5.070, aberto em agosto de 2026 a partir da reautuação da Pet 16.369 (um dos itens do despacho de ontem) e vinculado ao Inq 5.026, a matriz da Operação Compliance Zero. A aba “Partes” do processo lista, como investigados: Flávio Nantes Bolsonaro (com três advogados constituídos, o que indica defesa já formalizada), Eduardo Nantes Bolsonaro, Mário Luís Frias — ex-secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro —, Thiago Miranda Silva (o mesmo nome da Pet 16.346), Fabiano Campos Zettel — o mesmo cunhado de Dias Toffoli já citado na seção sobre o ex-relator do caso, o que conecta as duas frentes por fonte primária, não só por especulação —, além de Paulo Sérgio Camin Calixto, Altieris Chaves Santana e Antonio Carlos Freixo Junior. Entre as pessoas jurídicas investigadas estão Entre Investimentos e Participações Ltda. e duas entidades com sede aparentemente nos Estados Unidos — Havengate Development Fund LP e Havengate Development Fund GP LLC —, uma estrutura (fundo + gestora) comum em veículos de investimento americanos; nenhuma reportagem consultada pelo Observatório havia citado esses nomes. O único despacho não sigiloso disponível na aba de andamentos, de 28/8, é administrativo — abre vista à PGR sobre um pedido de uma terceira pessoa, Karina Ferreira da Gama, sem detalhar o mérito. Nenhum desses nomes sofreu condenação ou mesmo denúncia formal — são investigados, com direito a defesa, num inquérito que a PGR ainda está analisando.

Hoje, horas depois do sigilo cair, uma nova ação. Às 13h04 de hoje, o senador Lindbergh Farias protocolou a Pet 16.727 — uma representação eleitoral contra Flávio Bolsonaro — ainda sem relator distribuído. É a terceira petição de Lindbergh contra a família Bolsonaro que o Observatório encontrou no portal (as outras duas são a Pet 16.292, contra Eduardo, e a Pet 16.640, autuada em agosto, também contra Flávio, mas ainda sob a Presidência, fora da lista de hoje).

Como em cada ponto anterior deste caso: nada disso é uma decisão de mérito. São disputas sobre sigilo, competência e o alcance da transparência, concentradas nos dias que antecedem a sessão de 15/9 — mas o pedido de Gilmar Mendes, se aceito, pode mudar o que, exatamente, o plenário vai julgar naquele dia.

A escala da Operação Compliance Zero, fora da crise Moraes-Mendonça

Os procedimentos liberados nos dias 10 e 11/9 não giram só em torno da crise entre ministros — a maior parte pertence à investigação original sobre a quebra do Banco Master, batizada pelo STF de Operação Compliance Zero. Um levantamento do Poder360, publicado depois da liberação, mapeia o conteúdo de cada processo por número. O Observatório não teve acesso direto aos arquivos — que exigem credenciamento e-STF, como já registrado na seção “Direto do sistema do STF” — e por isso trata esse mapeamento como fonte jornalística secundária, não verificada processo a processo pelo Observatório.

  • A escala financeira do núcleo do caso. O Inq 5.026 — a matriz da Compliance Zero, com mais de mil arquivos segundo o levantamento — apura fraudes em cessões de carteiras de crédito entre o Banco Master e o Banco de Brasília (BRB) da ordem de R$ 12 bilhões. Outro processo do mesmo lote, a Pet 15.478, investiga uma hipótese de CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) fraudulentas somando cerca de R$ 17 bilhões — números que dão a real dimensão financeira por trás da crise institucional que dominou as manchetes.
  • Uma frente sobre o próprio Banco Central. O Inq 5.035, chamado internamente de “Projeto DV”, apura uma suposta campanha coordenada de influenciadores contratados para defender Vorcaro e atacar a atuação do Banco Central — a mesma frente já mencionada, em termos gerais, na seção anterior.
  • Nomes de pessoas físicas nos núcleos “A Turma” e “Os Meninos”, pela primeira vez nesta cobertura. As Pets 15.976, 15.977 e 16.019 — ligadas aos dois núcleos já citados acima — apontam, segundo o mesmo levantamento, Manoel Mendes Rodrigues como a liderança do núcleo do Rio de Janeiro (“A Turma”) e Luiz Phillipi Mourão como ligado a “Os Meninos”, que teria acessado sistemas da própria Polícia Federal de forma irregular. A Pet 15.978 registra prisões preventivas de sete pessoas, entre elas Henrique Vorcaro — nome que não havia aparecido nas reportagens consultadas pelo Observatório sobre este caso até aqui.
  • Suspeita de corrupção dentro do Banco Central. A Pet 15.504 apura a relação entre Vorcaro e dois servidores do BC, identificados como Paulo Sérgio Neves e Belline Santana, sob suspeita de terem favorecido o banqueiro no exercício da função pública.
  • Um deputado federal citado, fora do radar até agora. A Reclamação 88.121 — defesa de Vorcaro questionando a competência do STF para o caso — menciona o deputado federal João Carlos Bacelar (União-BA), segundo o levantamento; o Observatório não localizou, até a publicação desta atualização, detalhamento sobre a natureza dessa menção nem confirmação em fonte independente.

Nenhum dos nomes citados nesta seção teve qualquer fato aqui descrito julgado pelo STF — são investigações em curso, a maioria delas fora do recorte da crise Moraes-Mendonça que é o centro desta cobertura, mas parte do mesmo conjunto de procedimentos que teve o sigilo levantado nos dias que antecederam a sessão de 15/9.

Peças que faltavam da sexta — Partido Novo, PGR citado e o elo com o Dark Horse

Reconstituindo com mais detalhe a sexta-feira (11/9), a partir de reportagens da Agência Brasil não incorporadas nas seções anteriores, alguns elos ficam mais claros:

  • Quem pediu o afastamento de Andrei Rodrigues foi o partido Novo — não Mendonça por iniciativa própria. A liminar de Mendonça que afastou o diretor-geral da PF e o diretor de Inteligência, Leandro Almada, atendeu a um pedido do partido Novo. Isso foi justamente um dos argumentos de Flávio Dino para reverter a decisão: “o partido Novo não tinha legitimidade para fazer tal pedido.” Rodrigues, em sua defesa a Fachin, repetiu o argumento — um partido político poderia comunicar à autoridade policial a existência de uma possível infração penal, mas não teria legitimidade para requerer diretamente ao Judiciário uma medida cautelar contra uma pessoa determinada.
  • A cúpula da PF reagiu em bloco. Segundo a Agência Brasil, o afastamento de Rodrigues e Almada “provocou reação dentro da Polícia Federal, com os demais diretores colocando seus cargos à disposição, em apoio a Andrei Rodrigues” — um gesto coletivo de protesto que nenhuma outra fonte consultada pelo Observatório havia registrado.
  • Rodrigues nega monitoramento e nega que os relatórios fossem anônimos. Na manifestação que apresentou a Fachin, o delegado escreveu: “Não existiu, em absoluto, qualquer monitoramento ilícito de Ministro deste E. STF e tampouco do Ilmo. Advogado-Geral da União. Os documentos que foram questionados pela decisão proferida na Pet 16662 não são decorrentes de ações de vigilância, coleta clandestina de dados, ou qualquer medida invasiva.” Sobre a acusação de que os relatórios seriam “apócrifos” — sem autor identificado —, respondeu que “têm autoria institucional, a qual foi declarada no próprio documento e restou confirmada pelo registro em sistema”, e que a ausência do nome do analista individual decorre do dever de proteção previsto no Decreto nº 8.793/2016, não de irregularidade.
  • A AGU também defendeu Rodrigues, por um argumento diferente. Para a Advocacia-Geral da União, afastar judicialmente o diretor-geral da PF interfere na competência constitucional do presidente da República sobre a administração federal, já que a direção-geral e a diretoria de Inteligência integram o “núcleo de direção estratégica” da corporação.
  • O procurador-geral Paulo Gonet também é citado nas mensagens de Vorcaro — não só Moraes. A Agência Brasil registra que “as conversas mostram citações aos nomes de Moraes e do procurador-geral da República, Paulo Gonet”, extraídas do mesmo celular. É Gonet quem pede a anulação do relatório da PF (ver seção “A disputa sobre o próprio relatório”, abaixo) — um interessado direto pedindo a anulação de um documento que também o cita.
  • A decisão de Flávio Dino que reintegrou Rodrigues tem uma origem específica: o Dark Horse. Segundo a Agência Brasil, a decisão de Dino foi tomada “no processo em que a PF analisa o material apreendido pela Polícia Civil de São Paulo em investigações sobre o desvio de emendas parlamentares para financiar a produção do filme Dark Horse” — ou seja, a Pet 16.669 (já identificada nesta cobertura como de relatoria de Dino) não é sobre a disputa institucional em si, mas sobre uma apuração distinta, de possível desvio de emendas parlamentares, que corre sob a relatoria dele. É mais um ponto de contato entre a frente Moraes–Vorcaro e a frente Dark Horse, além do já registrado Inq 5.070.
  • Treze ex-ministros do STF já haviam cobrado uma apuração rigorosa antes da escalada do fim de semana. Em carta enviada a Fachin em 7/9, ministros aposentados e ex-presidentes da Corte disseram ter “plena confiança na seriedade, discernimento e firmeza” de Fachin e “absoluta convicção” de que ele convocaria uma sessão pública com urgência. Na carta, afirmaram que os fatos “vêm comprometendo o prestígio e a autoridade desse Tribunal, a confiança do povo e até mesmo a estabilidade das instituições democráticas” — um sinal de pressão institucional anterior a boa parte do que está registrado nesta cobertura.

Nenhum desses pontos muda o que já estava registrado sobre o mérito do caso — são peças do mesmo quebra-cabeça institucional, vindas de reportagens publicadas na sexta-feira que o Observatório só incorporou nesta atualização.

O relatório que a PF fez sobre o próprio Mendonça

Voltando a um documento já mencionado nesta cobertura, mas não detalhado até aqui: o “relatório de inteligência” que Moraes usou para pedir a investigação de Mendonça, incorporado ao inquérito das fake news, tem 50 páginas e foi produzido pela PF antes de Mendonça tornar públicas as mensagens Moraes–Vorcaro, em 1º de setembro — não como retaliação, mas como um documento paralelo já em produção.

Uma ressalva que vale repetir com força. O próprio relatório se descreve como documento de inteligência para “subsidiar decisões em ambiente de informação incompleta”, sem “valor probatório” e sem ser “peça de instrução processual”. Chegou ao gabinete de Moraes sem timbre da PF, sem assinatura e sem data — o que Andrei Rodrigues, na manifestação já citada acima, contesta frontalmente, dizendo que os relatórios “têm autoria institucional”. As duas versões não são necessariamente incompatíveis (pode haver a cópia que circulou e o registro formal no sistema da PF), mas o Observatório não pôde confirmar qual delas é exata.

  • A confirmação de Cláudio Castro que faltava. O relatório tem uma seção chamada “Assimetria nos prazos de apreciação”, comparando quanto tempo Mendonça levou para decidir medidas envolvendo diferentes políticos: uma medida sobre Jaques Wagner levou 9 dias; uma sobre Ciro Nogueira, 29; duas envolvendo Cláudio Castro, 75 e 46 dias; e uma cautelar sobre o Instituto de Previdência de Maceió seguia pendente havia mais de 53 dias. A PF chama essa variação de “expressiva” e diz que os dados “sugerem uma possível correlação” entre o tempo de apreciação e o perfil do investigado — mas ressalva que a amostra é “pequena e não controlada”. Isso confirma, por uma via diferente do portal do STF, que Castro é mesmo parte da apuração ligada à Operação Compliance Zero.
  • A hipótese mais sensível do documento: Davi Alcolumbre como “alvo estratégico”. Numa avaliação de caráter político, os analistas escrevem que o presidente do Senado seria um “provável alvo estratégico”, dada sua força política e o controle que exerce sobre o rito de pedidos de impeachment de ministros do STF, e levantam a hipótese de que Mendonça veria no presidente do União Brasil, Antonio Rueda, uma “rota de acesso” a Alcolumbre — ligando isso à resistência histórica do senador à indicação de Mendonça ao STF em 2020. O próprio relatório é explícito: não afirma ter comprovado que Mendonça tenha usado alguma investigação para atingir Alcolumbre. É uma hipótese de inteligência, não um fato apurado — e assim deve ser lido.
  • Moraes e Toffoli, tratados de formas diferentes segundo o relatório — mas sem uma causa comprovada. Os analistas registram que, diante de informações sobre Moraes, Mendonça sinalizou interesse em abrir investigação formal; diante de “graves elementos de prova” sobre Toffoli (já citados na seção sobre o ex-relator, abaixo), identificaram “contemporização”. O relatório mesmo pondera que a diferença “seria verificável documentalmente, mas sua causa não estaria demonstrada” — não conclui favorecimento a Toffoli nem perseguição a Moraes.
  • Falas atribuídas a Mendonça sobre Andrei Rodrigues e Paulo Gonet. Segundo o relatório, Mendonça teria dito, em reuniões internas, que Andrei Rodrigues mantinha “proximidade inadequada” com o presidente Lula, e chegou a mencionar um procedimento avaliando o afastamento do diretor-geral da PF — semanas antes de, de fato, afastá-lo. Sobre Gonet, o relatório atribui a Mendonça a avaliação de que a proximidade do procurador-geral com Gilmar Mendes o tornaria “indigno de confiança”, e registra que o ministro teria cogitado arrolar Gonet como testemunha em processos derivados das operações. Nenhuma dessas falas foi confirmada por Mendonça — são atribuições feitas por um documento que o próprio Andrei Rodrigues contesta.
  • O pano de fundo do inquérito das fake news. O Inq 4.781, ao qual o relatório foi anexado, foi aberto em 2019 por determinação direta do então presidente do STF, Dias Toffoli, que nomeou Moraes como relator sem o sorteio eletrônico normalmente usado para distribuir processos — os dois foram colegas de turma na Faculdade de Direito da USP. Segue aberto e sigiloso até hoje, sem prazo para encerrar. Em abril de 2026, Gilmar Mendes defendeu publicamente sua utilidade: “Tenho a impressão de que o inquérito continua necessário e vai acabar quando terminar. […] O Tribunal vem sendo vilipendiado. […] Foi um momento importante abrir o inquérito e mantê-lo até as eleições.”

Uma ressalva antes de ir adiante: isto não é um documento oficial. Ao contrário dos despachos citados nas seções anteriores — obtidos diretamente do sistema do STF, autenticáveis pelo próprio tribunal —, este é um relatório interno de inteligência da PF, marcado “acesso restrito” e “difusão restrita”, que chegou ao público por meio do Poder360, presumivelmente por vazamento. O Observatório não tem como autenticar o documento de forma independente; está confiando na apuração do Poder360, que o publicou como parte de uma reportagem assinada. Tratando-se de documento de inteligência policial vazado — não de um ato processual público —, o padrão de cautela aqui é mais alto que o de qualquer outra fonte primária usada nesta cobertura.

Com essa ressalva registrada: o documento completo tem 50 páginas, e o Observatório leu todas, direto do PDF publicado pelo Poder360. Internamente, o relatório classifica cada afirmação com um código de confiança ([D] documentado, [R] relatado sem redução a termo, [A] avaliação do analista) e um grau (ALTA/MODERADA/BAIXA) — uma metodologia da própria PF, não do Observatório, e que diz respeito à confiança do analista na sua própria conclusão, não à autenticidade do documento como um todo. Abaixo estão só os pontos que o documento classifica como ALTA ou MODERADA confiança e que se apoiam em decisões, ofícios ou citações literais atribuídas a peças específicas — não nas avaliações de cenário de confiança BAIXA (que incluem, por exemplo, hipóteses sobre motivação política de Mendonça envolvendo outros ministros e parlamentares, deliberadamente deixadas de fora desta cobertura por não passarem no próprio critério de confiança do documento):

  • Um padrão duplo, documentado com citações literais de decisões reais. O relatório compara dois casos de Mendonça, cinco meses de distância: em 16/12/2025, negou a prisão preventiva do senador Weverton Rocha (Operação Sem Desconto) mesmo reconhecendo, nas palavras da própria decisão, “fortes indícios do seu envolvimento” — sem aplicar nenhuma cautelar alternativa a ele. Já em 31/03/2026, diante de um pedido bem mais brando contra Ciro Nogueira (mera instauração de inquérito, não prisão) apoiado em prova documentada — a Emenda nº 11 à PEC 65/2023, que teria sido escrita por advogados do Banco Master e entregue à casa do senador por ordem de Vorcaro (“Imprimi e deixa num envelope […] Para: Ciro”, teria escrito Vorcaro; “Foi a versão. Que o andre me mandou. Final. Saiu exatamente como mandei”, teria dito depois, sobre o texto final aprovado no Senado) —, Mendonça suspendeu a própria apreciação do pedido até que a PF produzisse mais provas.
  • Uma disputa institucional com números de processo próprios: Pets 16.080/DF e 16.319/DF. A Direção-Geral da PF pediu formalmente à AGU que avaliasse medidas judiciais contra três tipos de determinação de Mendonça: exigência de autorização prévia para mudanças na equipe de investigação; restrição ao fluxo interno de informação entre a equipe e a chefia da PF; e a obrigação de enviar dados brutos ao gabinete do relator já em formato compatível com ferramenta forense, antes da triagem da própria PF. A AGU decidiu não recorrer.
  • A origem de uma dessas petições: uma reunião com advogado de delator. Na decisão que abriu a Pet 16.080/DF, o próprio Mendonça registrou a origem do que motivou o procedimento: “Na data de 05 de maio de 2026, em audiência com advogado de pretenso colaborador investigado no contexto da operação Sem Desconto, tomei conhecimento de que o Delegado de Polícia Federal Guilherme Figueiredo Silva havia deixado a coordenação da referida operação policial.” Ou seja: soube de uma mudança na chefia da PF por meio do advogado de alguém negociando delação — não por canal oficial — e abriu um procedimento formal a partir disso.
  • Indícios de participação nas próprias tratativas de colaboração premiada — algo que a Lei 12.850/2013 (art. 4º, § 6º) proíbe expressamente ao juiz. O relatório registra que Mendonça indagou, em mais de uma reunião, sobre o andamento de negociações de delação em curso.
  • Escala da Operação Sem Desconto, segundo o próprio ofício da Direção-Geral da PF citado no relatório: nove fases, 419 mandados de busca e apreensão e 236 afastamentos de sigilo telemático.

Duas ressalvas finais, e nenhuma delas dispensa a outra. Primeira: hipóteses de inteligência não são provas, e um documento que se declara não-conclusivo não deveria ser lido como uma acusação — mesmo os itens de confiança ALTA listados acima são avaliações internas da PF sobre a solidez de uma conclusão, não uma decisão judicial sobre o mérito. Segunda, e talvez mais importante: todo este bloco depende de um documento vazado, sem chancela oficial e sem verificação independente do Observatório — se o documento revelado ao Poder360 for parcial, editado ou inautêntico, tudo o que se apoia nele está comprometido. O Observatório optou por publicar mesmo assim, por já circular publicamente e ter embasado decisões reais dentro do STF, mas pede ao leitor o mesmo grau de ceticismo que aplicaria a qualquer material de origem não oficial.

Um segundo ministro com conflito de interesse declarado — Dias Toffoli

Moraes não é o único ministro do STF com um vínculo relatado à órbita de Vorcaro. Antes de Mendonça, o relator original dos inquéritos do Banco Master era Dias Toffoli:

  • Em 2 de dezembro de 2025, a Polícia Federal informou a Toffoli que não havia encontrado indício de crime por parte de autoridades com foro privilegiado no caso. No dia seguinte, 3 de dezembro, Toffoli trouxe o processo inteiro do Master para o STF.
  • Em fevereiro de 2026, Toffoli se declarou impedido de seguir como relator depois que veio à tona que a Maridt Participações — empresa da família dele — vendeu participações no resort Tayayá (Ribeirão Claro, PR) para um fundo chamado Arllen (setembro de 2021) e para a empresa PHD Holding (fevereiro de 2025), ambos com algum grau de ligação a Vorcaro segundo reportagens. Toffoli afirmou publicamente que “jamais recebeu qualquer valor” de Vorcaro ou do cunhado dele, Fabiano Zettel, e negou relação de amizade com o banqueiro.
  • Foi assim, com a saída de Toffoli, que o processo chegou às mãos de Mendonça — o relator que depois tornaria públicas as mensagens entre Moraes e Vorcaro.

Como no caso de Moraes, não há decisão do STF sobre o mérito da relação de Toffoli com Vorcaro — o próprio ministro nega qualquer irregularidade, e o afastamento da relatoria foi voluntário (impedimento declarado por ele mesmo), não uma punição imposta pela Corte.

Atualização — 12 de setembro de 2026: o fundo Arleen, R$ 35 milhões e um voto suspeito sobre precatórios

Um relatório da PF enviado a Fachin — revelado pela revista piauí e confirmado por outros veículos — aprofunda a suspeita sobre Toffoli, ainda sem confirmação do STF:

  • “Beneficiário final ou proprietário de fato”. É como o relatório da PF descreve a suspeita sobre a relação de Toffoli com o fundo de investimento Arleen (FIP), que recebeu R$ 35 milhões de Daniel Vorcaro. O fundo comprou cotas da Maridt — a empresa dos irmãos do ministro, José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, dona de parte do resort Tayayá, onde o próprio ministro admite ter integrado o quadro societário. Em fevereiro de 2025, o Arleen mudou de dono: foi comprado pelo empresário Alberto Leite, descrito como amigo de Toffoli. Um mês depois, o fundo alterou seu regulamento para permitir investimentos no exterior e, em dezembro, transferiu todos os ativos para a holding Égide I, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas — território que a reportagem qualifica como paraíso fiscal do Caribe. “Documentos e comunicação […] sugerem uso de interpostas pessoas e estruturas no exterior, incluindo movimentações envolvendo a Edige I Holding nas Ilhas Virgens Britânicas”, diz o relatório da PF, segundo a piauí.
  • Uma reação de pânico, e um resultado que agradou o Master, segundo diálogos do celular de Vorcaro (apurado diretamente pelo Observatório numa segunda leitura da reportagem, que corrige a sequência descrita numa versão anterior deste texto). A PF suspeita que Vorcaro tentou influenciar um voto de Toffoli numa ação sobre precatórios da destilaria Alcídia (grupo Atvos), que cobrava da União reparação por prejuízos da década de 1980 — carteira que, somada a precatórios semelhantes do setor sucroalcooleiro, valia mais de R$ 10 bilhões no balanço do banco. Historicamente, Toffoli votava a favor das usinas nesse tipo de caso; mas, pouco antes do julgamento da Alcídia, ele votou a favor da União em outra ação — uma inversão do próprio padrão. “Matou a gente”, escreveu o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria a Vorcaro, reagindo à decisão. André Kruschewsky, diretor jurídico do Master, perguntou a Vorcaro: “Vamos nos movimentar?” — e chegou a oferecer, segundo a reportagem, ajuda para “tirar de pauta” o processo caso fosse preciso. Vorcaro respondeu: “Tô tratando aqui”. No dia do julgamento da Alcídia propriamente dita, Kassio Nunes Marques pediu vista e Toffoli registrou ausência justificada; o caso foi retomado depois e terminou em 3 votos a 2 a favor da Alcídia — a usina, e portanto o interesse do Master —, com o voto de Toffoli entre os três. “Ganhamos Alcídia”, informou um operador do banco a Vorcaro em 1º de outubro de 2024. O gabinete de Toffoli nega qualquer “mudança de posicionamento”.
  • Encontros sociais, segundo mensagens do celular de Vorcaro. A reportagem cita um convite feito por Toffoli a Vorcaro para seu aniversário de 56 anos, em outubro de 2023, num bar em São Paulo — sem evidência de que o banqueiro tenha comparecido —, uma ida de Vorcaro à casa de Toffoli em novembro de 2023 por sugestão de Fábio Faria, e um segundo convite de aniversário em 2024, desta vez recusado por Vorcaro (“Puxa que pena, vou estar na Suíça a trabalho!”).
  • A resposta de Toffoli. Por nota, o gabinete do ministro afirmou que ele “jamais manteve ou teve direta ou indiretamente recursos no exterior”, “jamais realizou qualquer operação direta ou indiretamente nas Ilhas Virgens Britânicas” e “jamais teve relação de amizade ou intimidade com Daniel Vorcaro”. Sobre o caso Alcídia, informou que o processo “foi arquivado, com decisão de trânsito em julgado” e que, segundo nota oficial do STF de 12 de fevereiro de 2026, “os dez ministros tiveram ciência de todo o conteúdo […] deliberando não ser o caso de suspeição”.
  • Por que isso chegou a Fachin, e não a Mendonça. A PF enviou o relatório à Presidência do STF porque Toffoli foi relator do caso Master e porque ministros da Corte não podem ser investigados sem aval do próprio tribunal. Questionado pela reportagem, o gabinete de Mendonça — atual relator do inquérito do Master — afirmou que o relatório não lhe foi enviado.

Como em todo o restante deste caso: nada disso foi julgado pelo STF. É um relatório de inteligência policial, ainda sob análise, contestado ponto a ponto pelo próprio Toffoli.

Dois outros nomes: os filhos de Nunes Marques e de Fux

Antes mesmo da crise de setembro, reportagens já haviam ligado outros dois ministros do STF à órbita do Master — não diretamente, mas por meio dos filhos.

Kevin de Carvalho Marques, filho de Kassio Nunes Marques. Uma reportagem de março de 2026, baseada em dados do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) e publicada originalmente pelo jornal O Tempo em 19 de março, corroborada por Metrópoles, Gazeta do Povo, Revista Oeste, ISTOÉ, Brasil247 e o portal RED, entre outros:

  • A cadeia de pagamentos. A consultoria Consult Inteligência Tributária recebeu R$ 18 milhões do Banco Master (R$ 6,6 milhões) e da JBS (R$ 11,3 milhões) somados, entre agosto de 2024 e julho de 2025. No mesmo período, a Consult pagou a Kevin — sócio, com Gabriel Campelo de Carvalho, do Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT), que compartilha endereço com a Consult em Alphaville — R$ 281 mil em cerca de dez transferências. Kevin declarou ter recebido R$ 234,8 mil líquidos pela prestação de “serviços de assessoria jurídica”.
  • O que chamou atenção do Coaf. O faturamento declarado da Consult era de apenas R$ 25,5 mil — uma discrepância que levou o órgão a classificar as transações como “incompatíveis com a capacidade financeira” da empresa, sugerindo que “alguns dos valores podem ter origem não formal”.
  • As respostas. A Consult confirmou o pagamento a Kevin como “devida remuneração pela prestação de serviços técnicos e de assessoria jurídica”. Kevin negou qualquer relação do IPGT com o Master ou a JBS. Kassio Nunes Marques declarou não ter “relação de proximidade” com Daniel Vorcaro e não se recordar de trocas de mensagens sobre assuntos sociais.

Rodrigo Fux, filho de Luiz Fux. Reportagens corroboradas por múltiplos veículos (BPMoney, 18 Horas, portal RED) mostram que Rodrigo participou, em março de 2025, da área vip do camarote Alma Rio durante o Desfile das Campeãs na Marquês de Sapucaí (Carnaval do Rio) — mensagens do celular de Vorcaro mostram o banqueiro determinando que “Fux” fosse colocado no espaço vip — e de uma degustação exclusiva de uísque em Nova York custeada por Vorcaro, reunindo cerca de 40 convidados (um evento distinto da degustação em Londres, com Moraes e Andrei Rodrigues, já registrada nesta cobertura). Rodrigo negou “amizade ou relação profissional” com Vorcaro e afirmou nunca ter prestado serviços a ele, dizendo que o banqueiro chegou a tentar uma aproximação comercial que não avançou.

O que nenhuma dessas reportagens estabelece. Em nenhum dos dois casos as fontes consultadas pelo Observatório apontam voto ou decisão dos ministros favorável ao Master, à JBS ou a Vorcaro relacionado a essas ligações com os filhos — a documentação é financeira e social, não uma contrapartida judicial identificada.

Como nos demais pontos desta cobertura: um pagamento ou um convite social a um filho de ministro não é, por si, prova de irregularidade do ministro — e nenhuma das fontes aqui usadas afirma o contrário. São mais dois fios da mesma teia de relações em torno de Vorcaro, que agora envolve quatro ministros por vias diferentes: Moraes diretamente, Toffoli por um fundo de investimento, Nunes Marques e Fux pelos respectivos filhos.

A disputa sobre o próprio relatório

A Procuradoria-Geral da República pediu a anulação do relatório da PF que originou a revelação, argumentando que Mendonça não poderia ter solicitado diretamente à corporação uma apuração sobre um colega de tribunal — que, segundo esse argumento, exigiria autorização prévia do plenário do STF.

Não foram só mensagens — ao menos seis encontros presenciais desde 2024

Reportagens publicadas em 12 de setembro, reconstruindo a cronologia da crise a partir dos documentos liberados, acrescentam um dado que não estava registrado nas seções anteriores: segundo diálogos recuperados do celular de Vorcaro, o banqueiro e Moraes se encontraram pessoalmente pelo menos seis vezes desde 2024 — não apenas trocaram mensagens. O mesmo levantamento confirma, com base em metadados técnicos do arquivo, que o contrato entre o Banco Master e o escritório de Viviane Barci de Moraes (a soma de aproximadamente R$ 131 milhões já mencionada) foi editado por um usuário identificado como “Ministro Alexandre de Moraes” às 23h04 de 15 de janeiro de 2024 — cerca de 1h40 depois de Vorcaro devolver a minuta do contrato com sugestões de alteração. Segundo nota do escritório Barci de Moraes, Alexandre de Moraes acessou o documento a pedido do setor de compliance do próprio escritório e, não tendo processo envolvendo o Master sob sua relatoria à época nem identificado impedimento legal, não haveria irregularidade.

A defesa do escritório, em detalhe. Numa nota oficial mais extensa, o escritório Barci de Moraes afirma ter prestado ao Master, entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, um trabalho real e documentado: 94 reuniões ao todo — 79 presenciais na sede do banco (cerca de três horas cada), 13 com a presidência do Master (2 presenciais, 11 por videoconferência) e mais 2 por videoconferência —, além de 36 pareceres e opiniões legais em direito previdenciário, trabalhista, contratual, regulatório, compliance, proteção de dados e crédito. A equipe teria 15 advogados do próprio escritório, mais três escritórios terceirizados. O ponto central da defesa: “o escritório esclarece ainda que nunca conduziu nenhuma causa para o Banco Master no âmbito do STF”. Esta nota não foi verificada por documentos primários pelo Observatório — é a versão do próprio escritório, publicada por veículos de imprensa.

Nenhum desses pontos é, por si, uma decisão sobre o mérito — mas mudam a natureza do que está em jogo na sessão de 15/9: não se trata apenas de saber se houve troca de mensagens, mas se um ministro do STF interveio diretamente na redação de um contrato milionário entre sua esposa e uma parte de interesse do banco sob apuração da própria Corte.

Mendonça também recebeu Vorcaro — e confirmou o encontro

Até aqui, a cobertura deste caso tratava de mensagens e contratos entre Moraes e Vorcaro, revelados por Mendonça. Reportagens do ICL Notícias, confirmadas por outros veículos e pelo próprio ministro em 12 de setembro, mostram que Mendonça também se encontrou pessoalmente com Vorcaro:

  • O encontro. Em 14 de março de 2025, em São Paulo, Vorcaro foi recebido por Mendonça num imóvel ligado ao Instituto Iter — instituto fundado pelo próprio ministro —, num encontro que durou cerca de duas horas. O intermédio, segundo mensagens do celular de Vorcaro, teria partido do deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e do advogado Ciro Rocha Soares, que representa Vorcaro.
  • A PF apreendeu R$ 510 mil com a esposa de Cezinha de Madureira. Segundo reportagens corroboradas por três veículos diferentes (Bahia Notícias, Revista Fórum, Brasil247), a advogada Valéria Rodrigues Linhares — mulher do deputado — foi parada pela PF no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, em 25 de agosto de 2026, quando tentava embarcar para Brasília com dinheiro em espécie na bagagem de mão. Ela teria declarado inicialmente R$ 400 mil; a contagem, depois de a mala ser aberta, apurou R$ 510 mil. A defesa de Valéria diz que o dinheiro tem origem lícita — honorários de sua atividade como advogada — e que vai apresentar a documentação necessária para reaver o valor. Não há, até a publicação desta atualização, acusação formal contra ela nem decisão sobre a origem do dinheiro.
  • A versão de Mendonça. O ministro confirmou o encontro publicamente, dizendo tê-lo recebido “uma única vez” e “por iniciativa do próprio empresário”, e que “se limitou a ouvi-lo”. Segundo seu gabinete, a conversa tratou de um processo sobre precatórios de interesse do Master que estava sob julgamento no STF, e Moraes não foi tema da conversa. O ministro também teria se reunido com Ciro Soares, advogado de Vorcaro, em ocasião distinta.
  • Por que isso importa para o caso. Mendonça é o ministro que, desde 1º de setembro, tornou públicas as mensagens e os contratos que expuseram Moraes — e é também o relator que decide o que permanece sob sigilo. A revelação de que ele próprio recebeu Vorcaro pessoalmente, num processo de interesse do banco, é o argumento central por trás da acusação de Moraes de que Mendonça age com parcialidade neste caso (ver seção sobre o pedido de investigação contra Mendonça, abaixo).
  • Mendonça deixou o Instituto Iter — mas pelos contratos públicos do instituto, não só pelo encontro com Vorcaro. A CartaCapital (edição 1430) atribui a saída de Mendonça da sociedade do Iter — instituto que ele fundou em 2023 — à notícia do encontro com Vorcaro. Mas o motivo imediato, segundo outras reportagens, foi mais específico: o Iter havia firmado cerca de R$ 10,85 milhões em aproximadamente 55 contratos com órgãos públicos de 14 unidades da Federação, dos quais 54 foram por contratação direta — sem licitação competitiva (42 por inexigibilidade, 9 por dispensa, 3 por outra modalidade de contratação direta) — somando R$ 10,46 milhões, ou 96,4% do valor total; apenas um contrato, de R$ 390 mil, foi por pregão. Diante da revelação desses contratos, Mendonça decidiu deixar a sociedade numa conversa com o presidente do instituto, Victor Godoy, na quarta-feira 2 de setembro, formalizando a saída no dia seguinte (3/9). Permanece como professor de uma disciplina do Iter (“A Arte e a Ciência da Oratória”). À época do encontro com Vorcaro, em março de 2025, Mendonça ainda não era relator do caso Master.
  • Um mês antes do encontro, uma ida à alfaiataria. A mesma reportagem, citando newsletter do jornalista Paulo Motoryn, relata que Mendonça foi a uma alfaiataria acompanhado de Ciro Soares — o mesmo advogado de Vorcaro — para fazer um terno, um mês antes do encontro de 14 de março. Em áudio de WhatsApp enviado a Vorcaro naquele dia, Ciro Soares teria dito: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno.” Em outra mensagem, segundo a mesma reportagem: “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo […] Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia.” Se confirmada, essa segunda mensagem sugeriria que Mendonça já tinha conhecimento da situação do Master antes mesmo do encontro de março — mas trata-se da fala do próprio advogado de Vorcaro, não de uma declaração de Mendonça, e o Observatório não teve acesso ao áudio original, apenas ao relato da reportagem.

Como em todo este caso, a confirmação do encontro não é, por si, prova de irregularidade — o próprio Mendonça o admite e o descreve como uma escuta pontual sobre um processo específico, não uma negociação. Cabe ao STF, não a este Observatório, avaliar se há conflito de interesse.

Dark Horse: os números se multiplicam — e nem todos são sobre o mesmo contrato

A quebra de sigilo de 11/9 tornou público o inquérito sobre o financiamento do filme Dark Horse, relatado por Mendonça, e uma operação distinta, relatada por Flávio Dino, sobre desvio de emendas parlamentares para a mesma produção — batizada pela PF de Operação Make Up, deflagrada na quinta-feira 10/9 com 49 mandados de busca e apreensão em três estados e no Distrito Federal, tendo Karina Gama e o deputado Mário Frias entre os alvos. Na casa de Frias, a polícia apreendeu computadores, celulares e sete armas — guardadas, segundo a CartaCapital, num endereço diferente do declarado pelo parlamentar, o que abriu uma investigação à parte por porte ilegal. Reportagens de 12 de setembro, cruzando os dois inquéritos, reconciliam uma sequência de valores que vinham sendo citados de forma dispersa:

  • R$ 75,1 milhões — o que a produtora do filme (Go Up Entertainment, de Karina Ferreira da Gama) diz ter efetivamente gasto na produção.
  • R$ 61 milhões — o que Vorcaro teria repassado ao filme por meio de um fundo nos Estados Unidos, segundo a PF.
  • US$ 24 milhões (R$ 134 milhões pela cotação da época, ou aproximadamente R$ 122,7 milhões pela cotação atual) — o valor total que Flávio Bolsonaro teria negociado com Vorcaro antes da prisão do banqueiro, segundo o site The Intercept Brasil, dividido em 14 parcelas. Desse total, ao menos US$ 12,3 milhões (cerca de R$ 62,9 milhões hoje) teriam sido efetivamente pagos, segundo documentos da investigação citados pela revista piauí — o que é consistente, dentro da margem de arredondamento e câmbio, com o valor de R$ 61 milhões que a PF atribui ao repasse de Vorcaro via fundo americano.
  • R$ 108 milhões, depois R$ 157 milhões — um contrato à parte, não relacionado ao financiamento do filme. É o valor de um contrato de 2024 entre o Instituto Conhecer Brasil (ICB), ONG presidida por Karina Ferreira da Gama — a mesma produtora do filme —, e a Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia de São Paulo (gestão Ricardo Nunes), para instalar e manter 5 mil pontos de wi-fi público na capital paulista. O ICB venceu a licitação em junho de 2024 sem nenhuma experiência prévia na área; pouco depois de assinado, o contrato recebeu um aditivo que elevou seu valor de R$ 108 milhões para R$ 157 milhões, segundo apuração da revista piauí (edição 240, setembro de 2026, reportagem “Em cartaz, a caixa-preta”, de Breno Pires). A prefeitura pagava o ICB, que imediatamente repassava a fornecedores — um fluxo que investigadores da Polícia Civil de São Paulo descrevem como o de “uma empresa de passagem”. Segundo o site The Intercept Brasil, o ICB também subcontratou uma empresa de disparos em massa que teria usado dados pessoais de usuários da rede para fins eleitorais — uma frente de apuração distinta da do financiamento do filme, mas que compartilha a mesma personagem central.
  • A Prefeitura de SP identificou notas fiscais canceladas depois do pagamento — e cobra R$ 906,7 mil de volta. A prefeitura notificou o ICB sobre notas fiscais que as próprias empresas emissoras cancelaram depois de já terem sido pagas — o que torna a despesa correspondente ilegítima. Quatro notas nessa situação somam a devolução cobrada: três da JR Feijão Ltda. (R$ 101.483,90, R$ 105.864,50 e R$ 199.404,10) e uma da Favela Conectada (R$ 500 mil) — esta última descrita apenas como “prestação de serviços conforme contrato”, sem detalhar o serviço prestado. Outras notas, de quatro empresas diferentes (Make One Tecnologia Digital, Complexsys Soluções Integradas, Ultra IP Tecnologia e novamente Favela Conectada), somando R$ 11.131.666,26, foram sinalizadas como carentes de documentação e aguardam esclarecimento — ainda não confirmadas como irregulares.

A reportagem da piauí: mensagens inéditas, uma auditoria da CGU e um laudo que não fecha as contas

A revista piauí teve acesso a um trecho inédito de mensagens entre Vorcaro e o publicitário Thiago Miranda — que intermediou o contato entre o banqueiro e Flávio Bolsonaro — e reconstituiu, com data e valor de cada remessa, o fluxo de dinheiro do Master para o filme. Pontos que não constavam da cobertura anterior deste caso:

  • O áudio de cobrança de Flávio, na íntegra. Em 8 de setembro de 2025, Flávio Bolsonaro enviou um áudio a Vorcaro cobrando parcelas atrasadas do financiamento, cada uma no valor de US$ 1,6 milhão (mais de R$ 8 milhões pela cotação atual): “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá? Mas, enfim… É por causa desse momento muito decisivo aqui do filme.” Concluiu avisando que, sem o dinheiro, a produção desmontaria: “Perde ator, perde diretor, perde equipe, perde tudo.” O áudio, revelado pelo site The Intercept Brasil (repórter Paulo Motoryn) teria cerca de 1 tonelada de peso em dados — parte de um vazamento maior.
  • Emendas de quatro deputados, mas só uma chegou ao alvo. Uma segunda entidade de Karina Gama, a Academia Nacional de Cultura, foi contemplada com R$ 3,6 milhões em emendas parlamentares por iniciativa de quatro deputados bolsonaristas do PL — Carla Zambelli (SP), Marcos Pollon (MS), Delegado Ramagem (RJ) e Bia Kicis (DF) —, mas o governo de São Paulo considerou que a entidade não atendia aos requisitos e o dinheiro nunca foi repassado a ela. Já uma emenda do deputado Mário Frias (PL-SP) — R$ 2 milhões, em duas remessas de R$ 1 milhão, para dois projetos distintos — chegou de fato ao Instituto Conhecer Brasil.
  • A CGU encontrou irregularidades nos dois projetos de Frias. Uma auditoria da Controladoria-Geral da União apurou que o projeto “Lutando pela Vida” (aulas de esportes de combate para 500 pessoas em Pirassununga-SP) teve pagamentos sem comprovante de entrega de bens ou prestação de serviços; o projeto “Jovem Empreendedor” (que prometia capacitar 250 pessoas e alcançar 2.250 estudantes) não capacitou ninguém e não atendeu nenhum estudante, segundo a CGU — que agora avalia pedir o dinheiro de volta e responsabilizar os envolvidos.
  • Um laudo pericial contratado pela própria produção não resiste a exame. Diante das suspeitas, a produção de Dark Horse encomendou e entregou às autoridades um “Laudo de Perícia Investigativa Defensiva” afirmando que as contas do filme batem: recebimento e gasto de exatamente US$ 13.393.081,29 até 4 de junho de 2026. Mas o documento — 32 páginas — não discrimina valores por pessoa, empresa ou serviço, nem apresenta os dados que permitiriam rastrear os pagamentos, apenas afirma que são rastreáveis. Produtores de cinema brasileiros consultados pela piauí apontaram inconsistências: só 28% dos custos aparecem como gastos no Brasil, o único país onde houve filmagens; US$ 383 mil teriam sido gastos só com desenvolvimento de roteiro — “Se esse é o custo do roteiro, esse roteirista é um cara que ganhou o Oscar. Isso aqui é padrão Oscar”, disse um produtor ouvido pela revista; e US$ 2,68 milhões foram registrados como “soft-production” (etapa inicial, de equipe reduzida), mais caro que a etapa de pré-produção seguinte (US$ 2,66 milhões) — uma desproporção que a produtora Mariza Leão, com quarenta anos de carreira, chamou de incoerente. Michael Davis, sócio americano da Go Up Entertainment, negou detalhar os números às perguntas da piauí, alegando cláusulas de confidencialidade.
  • Fabiano Zettel, o cunhado de Toffoli, também aparece do lado de Flávio. A reportagem identifica Fabiano Zettel — já mencionado nesta cobertura como cunhado de Dias Toffoli, num contexto totalmente diferente (o fundo Arleen) — atuando como interlocutor de Flávio Bolsonaro em tratativas financeiras com Vorcaro sobre o filme, em janeiro de 2025. É a primeira conexão direta, encontrada pelo Observatório, entre a frente Toffoli–Arleen e a frente Dark Horse — mas trata-se do mesmo nome em dois papéis distintos, não de uma ligação comprovada entre os dois casos.
  • Ao menos cinco encontros presenciais entre Flávio e Vorcaro, com mensagens de afeto. Entre agosto de 2024 e novembro de 2025, Flávio e Vorcaro se encontraram pessoalmente pelo menos cinco vezes, segundo a reportagem. Em 7 de novembro de 2025 — dez dias antes da prisão de Vorcaro —, Flávio mandou ao banqueiro um vídeo da produção do filme: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc!” Vorcaro respondeu: “Que demais. Ficou perfeito.” Em 16 de novembro, véspera da prisão, Vorcaro disse que “estava na igreja”; Flávio respondeu com duas imagens de visualização única (conteúdo desconhecido) e depois escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!” — “a luz”, segundo a reportagem, era código para a data do próximo pagamento. Depois da prisão de Vorcaro (17/11) e de sua soltura (29/11), Flávio o visitou — episódio revelado à época pelo site Metrópoles —, alegando se tratar de uma visita de amizade, sem relação com dinheiro.
  • Quem é Karina Gama. A reportagem traça a trajetória da produtora: jornalista de formação, organizadora de eventos evangélicos em São Paulo nos anos 2010, depois empresária do terceiro setor. Aproximou-se de Mário Frias em 2022, quando ele era secretário especial de Cultura do governo Bolsonaro, e prestou serviços (R$ 54 mil) à campanha dele a deputado federal naquele ano. Com o apoio de Frias, a Go Up obteve os direitos cinematográficos sobre a vida de Bolsonaro ainda em 2022; o orçamento do projeto chegou a US$ 25,4 milhões antes de Vorcaro se comprometer, em dezembro de 2024, a financiar US$ 24 milhões dele.
  • Denúncias trabalhistas nas filmagens. Sindicatos e o Ministério do Trabalho apuram denúncias de figurantes e técnicos sobre jornadas longas, atrasos de pagamento, cachês abaixo do piso sindical e revistas abusivas (“toques nas regiões dos seios e partes íntimas”). Um figurante teria sido agredido por um segurança durante gravações no Memorial da América Latina, em São Paulo, gerando boletim de ocorrência e pedido de exame de corpo de delito pela Polícia Civil.
  • A conta não fecha, mesmo sem contar irregularidade. Para se pagar no mercado brasileiro, um filme costuma precisar arrecadar cerca de 2,5 vezes seu custo de produção — o que, no caso de Dark Horse, exigiria mais de R$ 188 milhões de bilheteria, mais do que qualquer filme brasileiro já arrecadou (o recorde é de Minha Mãe é uma Peça 3, com R$ 143,8 milhões). O filme, sem comunicação prévia à Ancine durante as filmagens, ainda não tem o Certificado de Registro de Título necessário para ser exibido em cinemas, nem data de estreia — mas não deve chegar aos cinemas antes das eleições.

O deputado federal Mário Frias (PL-SP) também é apontado como alvo da apuração de Dino sobre as emendas — além de seu papel, já descrito acima, na origem do próprio projeto do filme. A conclusão do relatório da PF sobre o financiamento do filme por Vorcaro, nas palavras do próprio documento, é que os elementos reunidos “constituem, em juízo de cognição sumária, um conjunto coerente de elementos que evidencia justa causa para a instauração da investigação, a fim de esclarecer a origem, o trânsito, a destinação e os beneficiários finais dos valores movimentados”. Flávio Bolsonaro nega irregularidade: “No filme do Bolsonaro não tem um real, não tem nada pra Flávio, tem patrocínio pra um filme privado.”

Nenhum desses valores foi confirmado como crime pelo STF — são elementos de duas investigações em curso, com naturezas diferentes (uma sobre o financiamento por Vorcaro, relatada por Mendonça; outra sobre desvio de emendas parlamentares, relatada por Dino, a partir de material da Polícia Civil de São Paulo), com direito à ampla defesa de todos os citados. A reportagem da piauí é, até aqui, a apuração mais detalhada sobre o caso Dark Horse que o Observatório encontrou — mas nem todos os elementos que reproduz vêm de documentos primários: alguns são de mensagens e áudios obtidos por terceiros (The Intercept Brasil), outros de fontes e documentos que a própria revista cita como parcialmente ilegíveis ou incompletos.

O pedido de investigação contra Mendonça, com fundamentação jurídica

A seção anterior desta cobertura já registrava que Moraes pediu a Fachin a abertura de uma investigação contra Mendonça. Reportagens de 12 de setembro detalham a fundamentação jurídica desse pedido, protocolado em 3 de setembro: Moraes alega que a conduta de Mendonça nos casos Master e do INSS poderia, em tese, configurar abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade, por quebra de imparcialidade e favorecimento a determinado grupo político — sem, segundo as reportagens consultadas, identificar publicamente qual grupo.

A sessão de 15/9 é mantida, mas o caso de Mendonça é destacado para 23/9

Na noite de sábado, 12 de setembro, Fachin tomou duas decisões que redesenham o que, exatamente, o plenário vai julgar:

  • Negou o pedido de adiamento e de julgamento conjunto. Atendendo pedido de Gilmar Mendes e do próprio Moraes — que alegava “risco concreto de decisões contraditórias e caos processual” se os casos fossem analisados separadamente —, Fachin manteve a sessão extraordinária de 15 de setembro, às 10h, mas negou que ela julgasse em conjunto a conduta de Mendonça.
  • Separou a apuração sobre a conduta de Mendonça para 23 de setembro. Segundo reportagens, Fachin destacou o pedido de investigação de Mendonça — apresentado por Moraes — do julgamento de 15/9, remarcando-o para uma nova sessão em 23 de setembro.

Atualização de 13/9 — a ambiguidade acima está resolvida. No sábado (12/9), à noite, Fachin determinou que a Petição 16.662 — a que trata da relação Moraes-Vorcaro e das informações que chegaram a Moraes — passe a ser relatada pela Presidência da Corte, não mais por Mendonça; o mesmo vale para as Petições 15.041 e 15.556. Segundo reportagens, foi o próprio Mendonça quem encaminhou a Petição 16.662 à Presidência, após uma decisão anterior de Fachin — não está definitivamente estabelecido, nas fontes consultadas pelo Observatório, se Fachin passa a relatar essas petições pessoalmente ou se há um passo intermediário. Fachin mencionou explicitamente, na decisão, a possibilidade de a Petição 16.662 resultar em situação de impedimento do julgador (artigo 144, inciso IV, do Código de Processo Civil) — dispositivo que trata de quando um magistrado não pode julgar por interesse pessoal na causa. A sessão de 15/9 segue mantida para tratar dos procedimentos ligados à controvérsia; a mudança de relatoria ocorre três dias antes dela.

Como em cada ponto anterior: nada disso é uma decisão de mérito sobre as mensagens, os contratos ou os encontros revelados. É a arquitetura processual que vai definir o que, exatamente, o STF decide em cada uma das duas sessões.

A degustação em Londres e outros detalhes da reportagem de capa da Veja

A edição 3012 da revista Veja (11 de setembro de 2026) dedicou a reportagem de capa “Racha Supremo” à crise. A revista tem linha editorial declaradamente crítica ao STF e a Moraes — o que não desqualifica os fatos concretos que reporta, mas pede que se separe, aqui, reportagem de opinião. Os pontos abaixo são fatos e citações diretas, não a moldura editorial da matéria:

  • Um evento em Londres. Segundo a reportagem, Andrei Rodrigues e Alexandre de Moraes integraram o grupo restrito de convidados de uma degustação de uísque custeada pelo Banco Master num clube privado de Londres, em 2024 — anterior, portanto, à prisão de Vorcaro e à crise atual. O Observatório não teve acesso a documentação primária sobre esse evento e o registra como informação de uma única reportagem.
  • A mensagem de Vorcaro sobre Andrei Rodrigues. Segundo a Veja, nas mensagens que enviou a Moraes na véspera de sua prisão e durante a liquidação do Master, Vorcaro escreveu: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível.” Nas mesmas mensagens, segundo a reportagem, Vorcaro perguntou a Moraes se deveria deixar o país, pediu ajuda para bloquear “as maldades” contra ele e deu a entender que ambos contavam com a “camaradagem” do procurador-geral da República e do diretor-geral da PF. Não se sabe o que Moraes respondeu — as mensagens dele, segundo a reportagem, foram enviadas com o recurso de visualização única do WhatsApp.
  • Um relatório apócrifo específico, com trecho reproduzido. A reportagem publica a imagem de um documento intitulado “Relatório de Inteligência — Tópico de Análise de Cenário”, sobre uma decisão de Mendonça de 24/8/2026 na Petição 15.556, que se descreve como de “natureza não acusatória e não impositiva” mas conclui, sob o título “Avaliação”: o item analisado “autoriza monitoramento e coleta dirigida”. O documento também qualifica como “suspeição reversa” o fato de a própria Polícia Federal — parte interessada, segundo o relatório, por ter seu diretor-geral afastado pela decisão analisada — ter produzido a avaliação. É a partir de documentos desse tipo que Mendonça afirma ter sido monitorado ilicitamente pela PF, e que Moraes e Fachin contestam a legitimidade do procedimento.
  • Vorcaro nega ter fechado delação. Em nota reproduzida pela revista, Vorcaro afirmou que o próprio diretor-geral da PF “viajou para eventos” com ele, “com namorada”, e que os delegados responsáveis por eventual colaboração premiada dele “não quiseram fazer” o acordo — sugerindo, sem provar, proximidade prévia entre a cúpula da PF e o banqueiro.
  • Como a Veja lê o alinhamento dos ministros. Em análise própria — não fato apurado, mas leitura jornalística do quadro político dentro da Corte —, a revista escreve que, dos dez ministros que devem votar em 15/9, três (Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin) “se alinham automaticamente a Moraes”, dois (Luiz Fux e Kassio Nunes Marques) estão “mais próximos do que defende André Mendonça”, Cármen Lúcia e Fachin não manifestaram apoio a nenhum lado, e Toffoli, impedido, não deve votar. Trata-se de uma leitura editorial da revista sobre a política interna do tribunal, não de uma classificação que os próprios ministros assumem publicamente.
  • Pano de fundo eleitoral. Segundo a reportagem companheira “Jogo Indefinido” (mesma edição), a crise coincidiu com o primeiro momento, nas simulações de segundo turno, em que o senador Flávio Bolsonaro aparece numericamente à frente de Lula — dado que, segundo a Veja, tem levado a campanha de Lula a buscar distanciamento público de Moraes.

Como em todo o resto desta cobertura: citações e fatos relatados por uma única reportagem, ainda não confirmados por outras fontes ou por documentos primários do STF, são tratados aqui como isso — relato de imprensa, sujeito a checagem futura.

O que a CartaCapital acrescenta — véspera da sessão de 15/9

A edição 1430 da revista CartaCapital (16 de setembro de 2026), com reportagem de capa assinada por André Barrocal, foi fechada nos dias que antecederam a sessão de 15/9 — portanto sem o resultado dela — mas traz detalhes que não constavam das fontes já usadas nesta cobertura. A revista tem linha editorial declaradamente crítica a Mendonça e ao bolsonarismo, o que pede a mesma separação entre fato e moldura editorial já aplicada à reportagem da Veja:

  • Nomes por trás dos apelidos na mensagem de Vorcaro a Moraes. A mensagem já registrada nesta cobertura — “Acha que segunda já tenho que estar fora?” — fazia parte de um trecho mais longo, no qual Vorcaro perguntava: “Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? […] Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?” Segundo a reportagem, “juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão que decretou a prisão preventiva de Vorcaro em novembro de 2025; “Galípolo” é Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, que decretou a liquidação do Master no dia da prisão do banqueiro; “Paulo” é Paulo Gonet, procurador-geral da República; “Andrei” é Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF.
  • Uma nota de março em que Moraes negou a existência das mensagens — contradita pelo relatório da PF. Segundo a reportagem, Moraes havia negado a colegas do STF, numa nota divulgada em março de 2026, que certas mensagens de WhatsApp enviadas por Vorcaro em 17 de novembro de 2025 (dia de sua primeira prisão) o tivessem como destinatário. O relatório da PF tornado público em setembro contradiz essa versão.
  • Fachin também tirou de Moraes a relatoria do inquérito das fake news — separadamente do caso Master. Segundo a reportagem, além de levar ao plenário o pedido de investigação contra Moraes, Fachin retirou da relatoria de Moraes o Inq 4.781 (o inquérito das fake news, aberto em 2019, já mencionado nesta cobertura) — mantendo Moraes apenas como relator das ações penais já decorrentes dele, com as apurações pendentes passando a correr sob a condução do próprio Fachin, que segundo a reportagem busca encerrar o processo. Esse é um inquérito diferente da Petição 15.556 e do Inq 5.026 (Operação Compliance Zero) que são o centro desta cobertura — mas a mudança de relatoria, se confirmada, é uma perda de poder adicional de Moraes, distinta da disputa Master-Mendonça.
  • Vorcaro alega ter tentado fechar delação, e mira Andrei Rodrigues — mas a PGR já rejeitou essa versão. No depoimento a Mendonça, prestado em 27 de agosto de 2026 — cuja transcrição é pública —, Vorcaro descreveu-se como alvo de perseguição e disse estar disposto a delatar autoridades para “se proteger dos ataques” que dizia sofrer, citando “pessoas do núcleo do atual governo” — entre elas, segundo a reportagem, o próprio Andrei Rodrigues, dizendo ter tido com ele uma “relação cordial” e que a negociação da delação não avançou porque exporia o diretor-geral da PF numa oitiva sem a participação da própria corporação. Em 2 de setembro, a Procuradoria-Geral da República pediu o arquivamento desse pedido de Vorcaro por falta de provas de “intimidação” — segundo reportagens, procuradores interpretaram o depoimento como uma tentativa de afastar o diretor-geral da PF sem apresentar evidência concreta contra ele. Nenhuma dessas acusações — nem a de Vorcaro, nem a leitura da PGR sobre a motivação dele — foi verificada de forma independente pelo Observatório.
  • O pagamento de US$ 1,6 milhão a Flávio, confirmado por relatório do Coaf. A reportagem cita relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) — o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro —, revelado pela piauí, confirmando que Flávio Bolsonaro recebeu ao menos US$ 1,6 milhão de Vorcaro por meio do fundo americano já mencionado nesta cobertura, administrado por um advogado de Eduardo Bolsonaro.
  • Uma alegação da própria revista, não um fato apurado: financiamento do “tarifaço”. A CartaCapital especula — com o verbo no condicional, sem apresentar prova documental — que a permanência de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos, de onde articulou sanções tarifárias americanas contra o Brasil, “pode ter sido financiada por Vorcaro”. O Observatório trata isso como hipótese da própria reportagem, não como fato estabelecido. Já é fato registrado, e não uma hipótese: o STF já havia imposto a Eduardo Bolsonaro, por maioria, uma pena de quatro anos de prisão por coação no curso do processo, relacionado à articulação daquelas sanções — uma sentença anterior e separada da crise atual, não decorrente das revelações sobre o Master.
  • Uma frase de Flávio Bolsonaro sobre o futuro do STF. Em ato público de oposição em 7 de setembro, Flávio Bolsonaro declarou: “Vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair.” É uma declaração de campanha, não um fato jurídico — o STF tem onze cadeiras, uma vaga há quase um ano (aposentadoria de Luís Roberto Barroso), e três ministros devem se aposentar por idade no próximo mandato presidencial, o que tornaria matematicamente possível a um presidente eleito indicar até cinco ministros, somados aos dois já indicados por Jair Bolsonaro (Mendonça e Nunes Marques) — mas a fala de Flávio pressupõe a queda de Moraes, que não é uma decisão tomada nem sequer votada até a publicação desta atualização.

Como em cada ponto anterior desta cobertura: trata-se de uma reportagem publicada antes da sessão de 15/9, refletindo o estado da apuração até então — não o resultado da sessão, que o Observatório vai registrar separadamente assim que ocorrer.

Sigilo do Dark Horse cai por completo — 13 de setembro de 2026

Dois dias antes da sessão de 15/9, Flávio Dino retirou o sigilo de todo o material da investigação sobre o financiamento do Dark Horse por emendas parlamentares — a frente já identificada nesta cobertura como Operação Make Up (10/9). A decisão foi tomada na Petição 16.669/DF, já mencionada aqui como de relatoria de Dino, e liberou mais de 5 mil documentos que estavam sob sigilo. Segundo reportagens, a mesma decisão determinou a centralização no STF de um inquérito que corria na Polícia Civil de São Paulo — o que aproxima essa frente da apuração original de Karina Gama e Mário Frias já detalhada na seção sobre a reportagem da piauí.

  • A fundamentação de Dino contra “vazamentos seletivos”, na íntegra. A decisão é incomumente explícita sobre por que a publicidade do processo é a regra, não a exceção: “Aparentemente essa diretriz deriva da ideia de a publicidade prevenir ‘vazamentos seletivos’, que de fato constituem grave vício a ser combatido. Tais vazamentos seletivos quebram a imparcialidade na condução da investigação criminal e do processo penal, na medida em que a autoridade estatal passa a escolher alvos, de acordo com amizades e inimizades, ou outros interesses ilegítimos, tais como ‘agradar’ detentores de poder econômico ou político, alimentar passeatas e outros ‘espetáculos’, ou mesmo gerar ganhos financeiros.” A frase ecoa — sem citar nominalmente — a própria disputa Moraes×Mendonça sobre liberação seletiva de sigilo que é o centro desta cobertura, embora a decisão trate formalmente de um processo distinto. Fonte: coluna de Manoela Alcântara, Metrópoles, 13/9/2026, corroborada por reportagens de outros veículos (ConJur, Jornal Opção-TO, entre outros) com o mesmo teor.
  • Escala financeira, em termos gerais. Reportagens descrevem “movimentações de centenas de milhões de reais” entre as empresas investigadas no esquema de emendas — uma cifra agregada, sem detalhamento por reportagem consultada de quanto disso se refere estritamente ao financiamento do filme (já reconciliado, com valores mais granulares, na seção sobre a reportagem da piauí) e quanto a outras frentes da Operação Make Up.
  • Uma manchete não confirmada que o Observatório optou por não reproduzir como fato. Uma reportagem (Revista Fórum) trouxe no título a possibilidade de elo entre a investigação e o PCC (Primeiro Comando da Capital), mas o Observatório não conseguiu acessar o corpo da matéria para verificar a base dessa afirmação, e outra reportagem sobre a mesma decisão de Dino, do mesmo dia, não faz essa menção. Não incorporamos essa informação até conseguir verificá-la diretamente. Vale notar que esta cobertura já registra, com fonte diversa (a apuração da piauí sobre o Dark Horse), que um dos fornecedores subcontratados pelo Instituto Conhecer Brasil é apontado pelo Ministério Público como membro do PCC — um fato já estabelecido, mas distinto da manchete não verificada de hoje.

Como no resto desta cobertura: a decisão de tornar público o material da investigação não é um julgamento de mérito sobre o que esse material mostra — é uma decisão sobre sigilo processual, tomada por um único ministro, ainda sujeita a recurso.

Domingo de pressão — quatro ministros, quatro ofícios, véspera da véspera da sessão

No domingo 13 de setembro — dois dias antes da sessão de 15/9 —, a disputa sobre quem tem acesso a quê dentro do próprio celular de Vorcaro virou uma sequência pública de ofícios trocados entre ministros e a PF, quase em tempo real. Reportagens da Folha de S.Paulo (pagas, não acessadas diretamente pelo Observatório) foram corroboradas, fato a fato, por Migalhas, Agência Brasil e outros veículos:

  • Zanin dá prazo de horas para a PF. Zanin determinou que a PF entregasse ao seu gabinete, até as 23h daquele domingo, cópia integral da mídia extraída do celular de Vorcaro (apreendido em 18 de novembro de 2025, na primeira fase da Operação Compliance Zero) — ordem endereçada ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues. Justificou precisar “conhecer o material para formar sua convicção” para o julgamento da Pet 16.662, marcado para terça. A frase central do ofício: “não há hierarquia entre os ministros do Supremo”, e “os elementos de prova pertencem ao Plenário do Supremo Tribunal Federal e aos seus integrantes e não a um integrante específico”. Zanin registrou ainda que a mesma mídia já havia sido compartilhada com os advogados de defesa de Vorcaro e com o Congresso Nacional — este último por determinação do próprio Mendonça, para instruir a CPMI.
  • A PF responde: tem condições técnicas, e o material está intacto. Fachin havia cobrado da PF, na noite de sábado (12/9), informações sobre o aparelho em 24 horas. A PF respondeu no domingo que os dados “estão preservados, sob a guarda da instituição”, com “lacres íntegros e com os mecanismos de verificação de integridade digital”, e que tem “plenas condições técnicas” para enviar cópia idêntica a quem solicitar — Moraes e Zanin já haviam formalizado interesse.
  • Mendonça se posiciona contra — e pede uma apuração própria. No mesmo domingo, Mendonça declarou-se contrário ao compartilhamento integral, argumentando que a divulgação poderia “tumultuar” a análise, prevista para terça, do relatório da PF sobre as mensagens entre Vorcaro e Moraes. Mendonça também pediu a Fachin que apure se delegados da PF sofreram “constrangimentos ou pressões” durante as investigações — e cobrou explicações da própria PF sobre as circunstâncias em que uma cópia dos dados chegou ao seu gabinete em março, apontando “divergência de informações” sobre esse envio. (Vale notar: a informação de que a cópia enviada a Mendonça em março não corresponderia ao material original — mencionada em uma síntese de agência que o Observatório consultou — não foi confirmada na leitura direta da fonte primária mais completa disponível; o que está confirmado é que Mendonça descreveu sua cópia como “lacrada” e recusou compartilhá-la a partir do próprio gabinete.)
  • Moraes pede sigilo derrubado de mais uma petição — a da “rede de pagamentos”. Também no domingo (18h37), Moraes pediu a Fachin a retirada de sigilo da Pet 15.645 — petição distinta da 15.556 já citada nesta cobertura —, que conteria, segundo a CNN Brasil, detalhes da rede de pagamentos de Vorcaro e do Banco Master. Moraes argumentou que Mendonça manteve sob sigilo um processo com “elementos essenciais” para a sessão de terça, e pediu que os autos da Pet 15.645 cheguem a todos os ministros antes do julgamento.

Em resumo: às vésperas da sessão, três ministros (Zanin, Moraes, e — por reportagens anteriores já citadas nesta cobertura — Gilmar Mendes) pressionam por acesso total e imediato ao material bruto do celular de Vorcaro; Mendonça, o relator que controla o que é ou não compartilhado, resiste e contra-ataca pedindo apuração sobre a própria PF. Nada disso foi decidido pelo plenário — são movimentos monocráticos e ofícios de um domingo tenso, não julgamento de mérito.

Segunda-feira, véspera da sessão — 14 de setembro de 2026

O prazo que Zanin fixara para a PF (ver seção anterior) foi cumprido, e o episódio ganhou um desfecho parcial nesta segunda — corroborado, fato a fato, por CNN Brasil e Agenda do Poder:

  • PF entrega cópias a três gabinetes. A PF enviou cópias dos dados extraídos do celular de Vorcaro aos gabinetes de Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. A corporação reafirmou que o material original nunca saiu de sua custódia — permanece com “lacres íntegros e mecanismos de verificação de integridade digital” — e que tem condições técnicas de fornecer cópias idênticas a quem solicitar.
  • A cópia que Mendonça recebeu em março, esclarece a PF, não é o material original. A ressalva que o Observatório havia registrado na seção anterior como não confirmada em fonte primária apareceu, nesta segunda, atribuída diretamente à PF: a cópia enviada ao gabinete de Mendonça meses antes não corresponde ao material original, que permanece integralmente sob custódia da corporação.
  • Zanin e Gilmar repetem o argumento da colegialidade. Zanin reiterou que “os elementos de prova pertencem ao Plenário […] e não a um integrante específico” e citou “o dever pessoal de cada julgador de contribuir e otimizar o processo decisório”. Gilmar foi na mesma linha — “o Plenário não é órgão do relator, mas colegiado cujos integrantes exercem jurisdição em condições iguais, sem hierarquia entre si” — e questionou que os demais ministros tiveram acesso, até aqui, só a “recortes de diálogos selecionados” no relatório produzido por determinação de Mendonça, “escolhidos entre várias outras conversas que não foram transcritas”.
  • Mendonça mantém a posição contrária. Argumentou que o compartilhamento integral poderia prejudicar investigações em curso e “tumultuar” a sessão de terça, citou uma frase atribuída a Fachin — “a gravidade dos fatos não autoriza atalhos […] não tolera subterfúgios ou desvios de rota” — e afirmou dispor “exatamente do mesmo conjunto de elementos de informação franqueado aos demais pares que irão participar da referida sessão”.
  • Fachin assume a relatoria do procedimento sobre Moraes. O presidente do STF assumiu formalmente a condução do caso — movimento já sinalizado em reportagens do dia anterior (ver “Domingo de pressão”, acima) e confirmado nesta segunda. Fachin negou o pedido de Moraes para que questionamentos sobre a conduta de Mendonça fossem analisados na mesma sessão de terça, mantendo reservada para isso a data de 23/9 já citada nesta cobertura.
  • Sigilo cai também sobre a rede de pagamentos apurada pelo Coaf. Atendendo a outro pedido de Fachin — motivado pelo ofício que Moraes enviou no domingo pedindo a retirada de sigilo da “rede de pagamentos” (ver seção anterior) —, Mendonça retirou, nesta mesma segunda, o sigilo do processo que reúne o relatório do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras) sobre os pagamentos de Vorcaro. Segundo a CNN Brasil, o processo tem três peças: uma petição da PF pedindo ao Coaf os Relatórios de Inteligência Financeira dos investigados; a resposta do Coaf, que reteve os pagamentos a pessoas com foro privilegiado por exigirem autorização expressa do STF; e o relatório entregue à PF. A reportagem registra que “não há registro no processo de que [Mendonça] tenha dado qualquer decisão” sobre o pedido de autorização — a PF havia solicitado em 10 de março de 2026, e o pedido ficou sem resposta até esta segunda.
  • Dois pagamentos, dois nomes já conhecidos desta cobertura. O relatório do Coaf lista mais de R$ 57 milhões destinados à Igreja Batista da Lagoinha entre dezembro de 2024 e dezembro de 2025 — instituição que, segundo a CNN Brasil, já foi alvo de apuração na CPMI do INSS por suspeita de desvio de emendas parlamentares — e R$ 22 mil a Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, já identificado nesta cobertura (seção “A escala da Operação Compliance Zero”) como ligado ao núcleo “Os Meninos”. Nenhum desses pagamentos foi julgado pelo STF; constam do relatório do Coaf como objeto de apuração, não como fato estabelecido.
  • Uma contradição entre fontes que o Observatório não resolve. A CNN Brasil descreve o destinatário dos R$ 57 milhões à Igreja Batista da Lagoinha, Fabiano Zettel, como “cunhado de Daniel Vorcaro”. Esta cobertura já havia identificado o mesmo nome — a partir de outra reportagem, sobre o fundo Arleen — como cunhado de Dias Toffoli (ver seção “Um segundo ministro com conflito de interesse declarado”, acima). As duas descrições não são necessariamente incompatíveis, mas o Observatório não encontrou, até a publicação desta atualização, uma fonte que explique a relação familiar exata — por isso registra as duas versões, sem unificá-las.
  • A PGR também apoia o fim do sigilo. O vice-procurador-geral da República, Hindenburgo Chateaubriand Filho — já citado nesta cobertura pedindo mais transparência sobre outros lotes de processos —, manifestou-se nesta segunda a favor do levantamento de sigilo pedido por Moraes.

Nada disso julga o mérito do caso. A validade do relatório da PF sobre as mensagens Vorcaro-Moraes — que a PGR pede para anular — é um dos pontos centrais que o plenário deve enfrentar na sessão de terça.

A sessão de 15 de setembro de 2026 — bate-boca e pedido de vista

Pela primeira vez na história do STF, o plenário se reuniu para decidir se abre uma investigação contra um dos próprios integrantes. A sessão extraordinária começou às 10h35, com transmissão pela TV e Rádio Justiça e pelo canal do STF no YouTube, e terminou sem julgar o mérito de nada — a crise institucional que vinha escalando desde 1º de setembro (ver seções anteriores) chegou ao plenário e não foi resolvida ali.

  • Uma questão de ordem, não o mérito. Fachin, como relator da Pet 16.662 desde 14/9 (ver seção anterior), leu o relatório e delimitou o que seria votado. Gilmar Mendes apresentou uma questão de ordem propondo reunir o procedimento sobre Moraes com a apuração sobre a conduta de Mendonça — a mesma reunião que Fachin já havia negado a um pedido informal de Moraes na véspera (ver “Segunda-feira, véspera da sessão”). Foi essa questão de ordem, não a investigação em si, que o plenário discutiu e votou.
  • 3 a 4 contra a questão de ordem, não um empate. A favor de julgar os dois casos juntos: Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes (3 votos). Contra — mantendo os casos separados, como Fachin já havia decidido: André Mendonça, Cármen Lúcia, Edson Fachin e Luiz Fux (4 votos). Flávio Dino não chegou a fechar voto para nenhum dos dois lados: depois da manifestação de Cármen Lúcia, que fechou o placar em 3 a 4, ele pediu vista dos autos (ver abaixo) em vez de votar.
  • Dois ministros fora da votação. Kassio Nunes Marques se declarou impedido. Dias Toffoli reafirmou a suspeição que já havia declarado em fevereiro (ver “Um segundo ministro com conflito de interesse declarado”, acima) e também não votou — nenhum dos dois é novidade desta cobertura, mas a sessão de 15/9 é o primeiro registro de ambos reafirmando a posição formalmente, em plenário, sobre este caso específico.
  • Dino pede vista — e o julgamento para por até 90 dias. Com o placar em 3 a 4 contra a questão de ordem de Gilmar, Flávio Dino pediu vista dos autos em vez de proferir voto, suspendendo o julgamento antes da proclamação do resultado. Pelo Regimento Interno, isso lhe dá até 90 dias para devolver o processo ao plenário. Segundo a Agência Brasil, nenhuma data de retomada foi fixada até a publicação desta atualização — inclusive não há confirmação, nas fontes consultadas pelo Observatório, de que a sessão de 23/9 sobre a conduta de Mendonça (reservada por Fachin no dia anterior) segue de pé.
  • O bate-boca. Moraes acusou Mendonça de conduzir a apuração contra ele de forma direcionada e disse ter testemunhas do que chamou de articulação para incriminá-lo; Mendonça respondeu “Mentira! Mentira!”. Gilmar Mendes fez críticas duras à atuação de Mendonça, apontando o que descreveu como viés político-eleitoral na condução do caso; Mendonça e Fux levantaram a hipótese de uma “PF paralela” monitorando ministros. Segundo a Agência Brasil, o Ministério Público Federal, presente à sessão, sustentou que a própria apuração de Mendonça sobre as conversas de Moraes com Vorcaro avançou sem autorização adequada.
  • Cármen Lúcia. Num tom destoante do bate-boca, a ministra disse estar “num estado de profunda consternação e tristeza”, declarou-se “um pouco envergonhada” com a situação do tribunal e pediu desculpas à população — a 20 dias das eleições, disse, o Judiciário deveria transmitir segurança, não mal-estar cívico.
  • Correção de 3 de outubro de 2026. Esta seção descrevia originalmente a sessão como um “empate 4 a 4”, contando Dino entre os votos a favor da questão de ordem, e registrava sem resolver uma divergência entre veículos sobre se o placar remanescente seria 4x3 ou 4x4. Uma cobertura mais detalhada da sessão, com a proclamação do resultado por Fachin e a íntegra da proposta de Gilmar, mostra que Dino não votou — ele pediu vista depois que o voto de Cármen Lúcia já havia fechado o placar em 3 a 4 contra a questão de ordem. Corrigimos a descrição acima para refletir isso; nenhuma outra conclusão deste caso depende desse número, já que a sessão não julgou o mérito de nada.

Nada disso julga se Moraes teve conduta irregular na relação com Vorcaro, nem se Mendonça agiu corretamente ao conduzir a apuração — a sessão discutiu só a questão processual de como julgar os dois casos, e mesmo essa questão ficou sem resposta.

Fachin retira a sessão de 23/9 da pauta — 17 de setembro de 2026

A incerteza registrada na seção anterior se resolveu, mas não na direção que a pauta original previa: a sessão de 23/9, que julgaria a conduta de Mendonça na condução do caso Master (Pet 16.704 — o pedido da PGR para anular o relatório da PF sobre as mensagens Moraes-Vorcaro, e as irregularidades que Moraes atribui a Mendonça), foi retirada da pauta por Fachin nesta quinta-feira.

  • Motivo declarado. Segundo a ConJur, Fachin considerou que o julgamento de 23/9 tem relação direta com a questão processual que ficou em aberto na Pet 16.662 — se os dois casos devem ou não ser julgados juntos, ponto que o próprio pedido de vista de Dino deixou sem resposta (ver seção acima). Sem essa definição, segundo o presidente do STF, não há como fixar os “parâmetros aplicáveis à tramitação do caso”.
  • Sem nova data. Fachin não remarcou a sessão; disse que fará isso só depois que os parâmetros processuais forem definidos — o que, por sua vez, depende do fim do pedido de vista de Dino (até 90 dias, ver seção acima).
  • O contexto do próprio pedido de vista, mais detalhado. Reportagens publicadas após a sessão de 15/9 acrescentam um motivo mais específico para a decisão de Dino: ele teria pedido vista depois de um novo bate-boca entre Gilmar Mendes e Mendonça já dentro da sessão, citando “responsabilidade com o país” e o argumento de que a Corte não poderia transmitir aquele tipo de cena institucional às vésperas da eleição de 2026. O Observatório registra esse relato — vindo de reportagens, não de ata oficial — como mais uma peça do que motivou a suspensão, sem elevá-lo à condição de fato definitivamente estabelecido.

Na prática, isso significa que a apuração sobre a conduta de Mendonça — que a cobertura anterior já tratava como pendente — fica sem data marcada, amarrada à mesma vista de Dino que já suspendia o caso Moraes.

Status

Até a publicação desta atualização (3 de outubro de 2026), o plenário do STF não julgou o mérito de nada do que está registrado neste caso. A sessão de 15/9 ficou em 3 a 4 contra a questão de ordem de Gilmar Mendes e foi suspensa por pedido de vista de Flávio Dino, que tem até 90 dias (regimentalmente, em torno de dezembro de 2026) para devolver o processo ao plenário. Em consequência, Fachin retirou da pauta, em 17/9, a sessão que julgaria a conduta de Mendonça — antes marcada para 23/9 — sem remarcar nova data. Não há, portanto, nenhuma sessão confirmada sobre este caso enquanto a vista de Dino não for devolvida. O Observatório vai atualizar este caso conforme o processo avançar.

Fontes

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