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Observatório do STF
judiciário às claras
Em apuração

Toffoli, o resort da família e a saída da relatoria do caso Master

Toffoli relatou o inquérito do Banco Master por três meses, formulou perguntas ao depoimento de Vorcaro e enfrentou duas representações da oposição sobre o resort Tayayá e o Fundo Arleen, antes de se declarar impedido em fevereiro de 2026.

Apuração em andamento — nenhuma conclusão definitiva.

conflito de interessesigilo processualimpedimento

Linha do tempo

  1. Toffoli é sorteado relator do inquérito do Banco Master

  2. Viagem a Lima num jato particular com advogado ligado ao caso

  3. Toffoli decreta sigilo sobre o caso

  4. Toffoli avoca o inquérito inteiro para sua relatoria no STF

  5. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, é preso por decisão de Toffoli

  6. Depoimento de Vorcaro à PF, com perguntas formuladas pelo próprio relator

  7. PGR arquiva três pedidos anteriores de suspeição contra Toffoli

  8. Notícia-crime de parlamentares da oposição contra Toffoli, na PGR

  9. Comunicação de fatos dos mesmos parlamentares, na Polícia Federal

  10. Toffoli se declara voluntariamente impedido; caso vai a Mendonça

    impedimento autodeclarado, não uma punição imposta pela Corte

Entre 28 de novembro de 2025 e 12 de fevereiro de 2026, o ministro Dias Toffoli foi o relator dos inquéritos do Banco Master no STF — antes de André Mendonça, hoje relator, e antes da crise Moraes-Vorcaro coberta em detalhe no caso “Mensagens entre Moraes e Vorcaro reveladas por Mendonça”. Este caso cobre especificamente a passagem de Toffoli pela relatoria: como ela começou, a forma como ele conduziu o inquérito, as representações que a oposição apresentou contra ele e a saída, por impedimento declarado por ele mesmo.

Como Toffoli chegou à relatoria

Toffoli foi sorteado relator de um recurso da defesa de Daniel Vorcaro em 28 de novembro de 2025. No dia seguinte, embarcou num jato particular para assistir à final da Copa Libertadores em Lima, no Peru, ao lado do advogado Augusto Arruda Botelho — defensor de Luiz Antônio Bull, diretor de compliance do Banco Master. Segundo os dois documentos citados abaixo, Toffoli confirmou a interlocutores que viajou no avião, mas negou ter discutido o processo durante o trajeto.

Em 2 de dezembro, Toffoli decretou sigilo sobre o caso. No dia seguinte, avocou o inquérito inteiro para o STF sob sua própria relatoria, acolhendo pedido da defesa de Vorcaro de que haveria conexão com uma autoridade com foro por prerrogativa de função — o deputado federal João Carlos Bacelar (União-BA). A decisão foi tomada de forma monocrática, sem imputação concreta contra Bacelar nem demonstração pública da conexão alegada.

Paralelamente, vieram à tona dois vínculos que passaram a ser lidos como possível conflito de interesse: Roberta Rangel, então esposa de Toffoli, foi sócia até 2021 do escritório do advogado Walfrido Wardi, que defende Vorcaro — o casal depois se separou, segundo reportagem de 2026 registrada no caso sobre o patrimônio imobiliário do ministro; e Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, foi preso em 14 de dezembro por decisão do próprio Toffoli — que classificou a prisão como “imprescindível” à investigação, dias antes de reportagens revelarem que fundos ligados a Zettel haviam comprado, por R$ 6,6 milhões, uma participação da família Toffoli no resort Tayayá (Ribeirão Claro, PR).

O resort Tayayá e o Fundo Arleen

O resort Tayayá é registrado em nome de familiares do ministro — os irmãos José Eugênio e José Carlos Dias Toffoli, via a empresa Maridt Participações. Reportagens (Estadão, Metrópoles) documentaram, com imagens e registros de frequência, que o próprio ministro esteve no local pelo menos 168 dias em 19 estadias entre 2022 e início de 2026, recepcionando pessoalmente convidados — entre eles André Esteves (BTG Pactual) e o empresário Luiz Pastore, cujo jato Toffoli usou na viagem a Lima.

O Fundo Arleen — que manteve relação societária com a Maridt no empreendimento Tayayá — encerrou suas atividades em dezembro de 2025 e transferiu cerca de R$ 34 milhões para a Égide I Holding, registrada nas Ilhas Virgens Britânicas. Este é o mesmo fundo e a mesma holding que, meses depois, um relatório da Polícia Federal revelado pela revista piauí descreveria com mais detalhe — incluindo a suspeita de que Toffoli seria “beneficiário final ou proprietário de fato” do Arleen, e um voto seu numa ação sobre precatórios que teria beneficiado o Master. Essa segunda fase, posterior à saída de Toffoli da relatoria, está coberta com profundidade no caso Moraes-Vorcaro-Master; aqui o registro é o que se sabia até fevereiro de 2026, quando Toffoli deixou o processo.

Em nenhum momento houve decisão judicial sobre a origem dos recursos do Arleen ou sobre a real titularidade do resort. O gabinete de Toffoli negou, por nota, “jamais” ter mantido recursos no exterior, realizado operação nas Ilhas Virgens Britânicas ou tido relação de amizade com Vorcaro.

O depoimento de Vorcaro e as perguntas do relator

Em 30 de dezembro de 2025, Vorcaro prestou depoimento à PF, conduzido pela delegada Janaína Pereira Lima Palazzo. Na metade da oitiva, o procurador da República Ubiratan Cazetta interrompeu para registrar em ata: “quem está direcionando agora as perguntas é o ministro. Eu vou deixar consignado que as próximas perguntas todas vêm do ministro Dias Toffoli.” A partir desse ponto, a delegada leu perguntas elaboradas pelo próprio relator — entre elas, sobre a atuação do Banco Central na crise e sobre a introdução de Henrique Peretto (dono da empresa Cartos) na cadeia de originação de crédito. O procurador também afirmou, mais adiante, que o inquérito, embora conduzido pela delegada, estava formalmente sob a jurisdição do próprio Toffoli — não do plenário do STF.

Esse episódio se somou a outras decisões do período que a PF e a imprensa descreveram como interferência atípica na condução técnica da investigação: Toffoli determinou que o material apreendido na 2ª fase da Operação Compliance Zero fosse lacrado sob sua guarda direta no STF (revertendo a decisão horas depois, para transferir a custódia à PGR); nomeou pessoalmente os quatro peritos que acompanhariam a perícia do material, sem consulta à cúpula da PF; e reduziu de seis para dois dias o cronograma de depoimentos de nove investigados, obrigando a PF a realizá-los na sede do STF. Reportagens da Gazeta do Povo e da Metrópoles, citando investigadores da corporação, registraram desconforto interno com essa condução.

As duas representações da oposição

Antes das representações abaixo, a PGR já havia arquivado, em 15 de janeiro de 2026, três pedidos anteriores de suspeição contra Toffoli — apresentados por Adriana Ventura (Novo-SP), Carlos Jordy (PL-RJ) e Caroline de Toni (PL-SC) — sob o argumento de que “o caso referido na representação já é objeto de apuração perante o Supremo Tribunal Federal, com atuação regular do Ministério Público Federal. Não há, portanto, providência a ser adotada neste momento.” Uma quarta representação, sobre a própria suspeição do ministro, seguia em análise.

Depois desse arquivamento, os deputados Marcel van Hattem (Novo-RS) e Adriana Ventura (Novo-SP) e o senador Eduardo Girão (Novo-CE) apresentaram duas novas peças, assinadas em conjunto:

  • Notícia-Crime à PGR, em 22 de janeiro de 2026, pedindo a instauração de procedimento investigatório contra Toffoli por lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial (art. 1º da Lei 9.613/1998), e seu afastamento da relatoria do caso Master.
  • Comunicação de Fatos à Polícia Federal, em 26 de janeiro de 2026, pedindo a instauração de inquérito policial pelos mesmos fatos e a inclusão formal de Toffoli no polo investigativo.

As duas peças se apoiam nos mesmos elementos — a viagem a Lima, o sigilo e a avocação do caso, o vínculo Rangel-Wardi, a prisão de Zettel, o resort Tayayá e a movimentação do Fundo Arleen para a Égide I Holding — e se baseiam quase exclusivamente em reportagens de imprensa já publicadas, sem juntar laudo pericial ou documento próprio de apuração. São representações de parlamentares de oposição, não decisões de qualquer órgão: o texto das duas peças é alegação de parte, não fato estabelecido.

Não localizamos, em fontes verificadas até a publicação deste caso, decisão específica da PGR ou da PF sobre essas duas peças de 22 e 26 de janeiro — diferente das três representações anteriores, essas não aparecem citadas como arquivadas nas reportagens sobre o arquivamento de 15/1 (que é anterior a elas) nem em cobertura posterior. O Observatório trata o desfecho dessas duas peças especificamente como não confirmado.

O desfecho: impedimento declarado, não imposto

A saída de Toffoli da relatoria não decorreu diretamente das duas representações acima. Em fevereiro de 2026, foi a própria Polícia Federal — por meio do diretor-geral Andrei Rodrigues — que entregou ao presidente do STF, Edson Fachin, um relatório com menções a Toffoli encontradas no celular de Vorcaro, e pediu formalmente o afastamento do ministro da relatoria. O gabinete de Toffoli chamou o pedido de “ilações”. Segundo reportagens, os demais ministros do STF, reunidos informalmente, apoiaram Toffoli e rejeitaram qualquer fundamento para impedimento compulsório.

Ainda assim, Toffoli se declarou voluntariamente impedido em 12 de fevereiro de 2026, e o caso foi redistribuído a André Mendonça. Em balanço público sobre sua passagem pela relatoria, em março, Toffoli afirmou que a PF havia retido o acesso dele a provas da investigação — uma queixa na direção oposta às críticas que a PF e a imprensa haviam feito à sua condução do caso.

Não há, até a publicação deste caso, decisão do STF sobre o mérito de qualquer suspeita envolvendo Toffoli, o resort Tayayá ou o Fundo Arleen — o afastamento foi um impedimento autodeclarado, não uma punição imposta pela Corte ou uma conclusão de investigação. Desdobramentos posteriores a fevereiro de 2026 — incluindo o relatório da PF revelado pela piauí em setembro sobre o Arleen e o voto de Toffoli no caso Alcídia — estão registrados no caso Moraes-Vorcaro-Master, não neste.

Fontes

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