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Observatório do STF
judiciário às claras
Em apuração

Gilmar Mendes, o jato ligado a Vorcaro e o Gilmarpalooza em Lisboa

Gilmar Mendes voou em jato de empresa em que Daniel Vorcaro tinha participação minoritária e organiza, desde antes do caso do Banco Master, um fórum anual em Lisboa com empresas que têm processos no STF — parte dos gastos de 2024 foi coberta pelo banqueiro, segundo a PF.

Apuração em andamento — nenhuma conclusão definitiva.

conflito de interessepatrocínio de eventostransporte aéreo

Linha do tempo

  1. 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, o "Gilmarpalooza", reúne sócios, diretores e presidentes de 12 empresas com processos no STF

  2. Gilmar Mendes voa num jato Phenom 300 (PT-PVH) operado pela Prime You, empresa da qual Daniel Vorcaro era sócio minoritário, de Diamantino (MT) a Brasília

    ministro confirma o voo, mas nega conhecimento do vínculo da empresa com Vorcaro; diz ter aceitado carona de outro empresário

  3. 13ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa começa, com seis ministros do STF confirmados, entre eles Gilmar Mendes

  4. Relatório do senador Alessandro Vieira na CPI do Crime Organizado, batizado "Vorcaro Air", cita voos ligados a Vorcaro usados por Gilmar Mendes — entre eles, fretes para o Fórum de Lisboa — e é rejeitado pelo colegiado da CPI no mesmo dia, por 6 votos a 4

    peça de um relator, rejeitada pelo colegiado da própria CPI — não é conclusão de investigação nem decisão de qualquer órgão julgador

  5. Gilmar Mendes diz ao UOL que não detectou "nenhum impacto" do caso do Banco Master sobre o Gilmarpalooza

  6. 14ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa ocorre entre 1º e 3 de junho, com participação menor de ministros do STF, integrantes do governo e governadores do que na edição de 2025

Este caso cobre dois fios que a cobertura do Banco Master revelou separadamente sobre Gilmar Mendes: um voo pontual, num avião de empresa ligada a Daniel Vorcaro, e o fórum jurídico anual que o próprio ministro organiza em Lisboa há mais de uma década — hoje mais conhecido pelo apelido informal “Gilmarpalooza”. O pano de fundo mais amplo da relação entre ministros do STF e a órbita de Vorcaro — incluindo a passagem de Dias Toffoli pela relatoria do inquérito do Master e o episódio das usinas que também envolveu Gilmar Mendes e o filho de Nunes Marques — está coberto nos casos “Toffoli, o resort da família e a saída da relatoria do caso Master” e “As usinas do Banco Master: Gilmar Mendes, o filho de Nunes Marques e o caso Alcídia”. Este texto trata de um ângulo diferente: transporte aéreo e patrocínio de eventos, não um julgamento específico.

O voo de 1º de janeiro de 2025

Em 1º de janeiro de 2025, Gilmar Mendes embarcou num jato Phenom 300 (Embraer), prefixo PT-PVH, que decolou de Diamantino (MT) às 16h38 com destino a Brasília. A aeronave é operada pela Prime You, empresa de gestão de bens de alto padrão — imóveis, hotel e aeronaves — da qual Daniel Vorcaro foi sócio minoritário entre setembro de 2021 e setembro de 2025, segundo reportagens. Gilmar estava em Diamantino para a posse do irmão mais novo, Chico Mendes, eleito prefeito do município em outubro de 2024.

Consultado pelo jornal O Estado de S.Paulo, Gilmar Mendes disse não ter conhecimento da relação entre a aeronave e a empresa ligada a Vorcaro, e afirmou ter aceitado uma carona oferecida pelo empresário Marcos Molina, presidente do conselho de administração da MBRF (grupo formado pela fusão de BRF e Marfrig). A assessoria da MBRF confirmou que Molina tem uma cota na aeronave operada pela Prime You, mas negou qualquer relação pessoal ou comercial entre o executivo e Vorcaro. Gilmar Mendes é um dos quatro ministros do STF — ao lado de Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Nunes Marques — citados em reportagens por terem voado em aeronaves ligadas a empresas do grupo de Vorcaro (Prime You e Prime Aviation).

O Fórum Jurídico de Lisboa e o apelido “Gilmarpalooza”

O Fórum Jurídico de Lisboa é um evento jurídico-acadêmico anual, organizado pelo Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) — escola fundada e presidida por Gilmar Mendes —, em parceria com a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o Lisbon Public Law, da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa. O evento existe desde antes do escândalo do Banco Master: uma edição de 2017, por exemplo, já havia sido criticada por reunir patrocinadores (Fecomércio-RJ, Itaipu Binacional e Aesbe) com processos em tramitação no STF, entre eles um sob a relatoria do próprio Gilmar Mendes — caso em que o ministro se declarou impedido após ser questionado pela imprensa.

Na 12ª edição, realizada entre 26 e 28 de junho de 2024, o fórum reuniu sócios, diretores e presidentes de 12 empresas com processos no STF: Aegea Saneamento, Banco Safra, Bradesco, BTG Pactual, Cosan, Eletrobras, Google, Grupo Votorantim, Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Instituto J&F, Magazine Luiza e Prudential. Seis ministros do STF estiveram em Lisboa naquela edição: Gilmar Mendes, Luís Roberto Barroso, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e Dias Toffoli. Na 13ª edição, entre 2 e 4 de julho de 2025, o evento voltou a reunir seis ministros do STF — Gilmar Mendes, Barroso, Moraes, André Mendonça, Dino e Toffoli —, além de ministros de governo, parlamentares (entre eles o presidente da Câmara, Hugo Motta, e o senador Ciro Nogueira), governadores, o procurador-geral da República Paulo Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues. Empresas com processos no STF voltaram a enviar representantes: BTG Pactual, a distribuidora de energia Light, a Eletrobras e o Grupo Yduqs, este último com doze processos em curso na Corte, segundo reportagens.

O Observatório procurou, sem sucesso, uma explicação pública e detalhada sobre quem financia a estrutura do fórum. O próprio Fórum de Lisboa afirmou, quando questionado sobre a edição de 2025, não haver conflito de interesse na participação de executivos de empresas com ações no STF; a Gazeta do Povo relatou ter enviado perguntas sobre financiamento e patrocínio aos organizadores, ao STF e ao próprio Gilmar Mendes sem obter resposta até a publicação da reportagem. Empresas presentes afirmam custear a viagem de seus próprios representantes, sem pagamento de cachê aos palestrantes — segundo nota do IDP relativa à edição de 2017, reiterada em espírito por edições posteriores.

O que a Polícia Federal apurou sobre o financiamento de Vorcaro

Documentos da Polícia Federal, obtidos pela Folha de S.Paulo e repercutidos por outros veículos, apontam que Daniel Vorcaro gastou cerca de US$ 11,5 milhões (por volta de R$ 60 milhões, no câmbio da época) em 2024 com eventos no exterior envolvendo autoridades brasileiras — passagens aéreas, hospedagem em hotéis de alto padrão, palestras, shows e degustações de whisky e cigarros, em encontros em Londres, Nova York e Lisboa. Do total, cerca de US$ 1,6 milhão (R$ 8,3 milhões) teria sido gasto especificamente em Lisboa, incluindo o aluguel de jatos para o retorno de participantes ao Brasil.

Segundo a mesma apuração policial, Vorcaro também cobriu, à parte do fórum oficial, hospedagem de autoridades em Lisboa — incluindo suítes no hotel Four Seasons reservadas para o período de 24 a 30 de junho de 2024 em nome do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do senador Ciro Nogueira — e patrocinou um encontro paralelo em Londres, em abril de 2024. Não há, nas fontes consultadas até a publicação deste caso, menção de que recursos do Master tenham sido usados para custear especificamente a viagem ou a hospedagem de Gilmar Mendes em Lisboa; o que está documentado é o papel do ministro como organizador de um evento que, segundo a PF, teve parte de sua estrutura paralela financiada pelo banqueiro.

A CPI, a “Vorcaro Air” e o relatório rejeitado

Em 14 de abril de 2026, o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), relator da CPI do Crime Organizado, apresentou relatório final que batizou de “Vorcaro Air” um conjunto de voos em aeronaves ligadas a Daniel Vorcaro usados por quatro ministros do STF — Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, Gilmar Mendes e Nunes Marques. Em relação a Gilmar Mendes, o relatório citou o voo de 1º de janeiro de 2025 entre Diamantino e Brasília e mencionou fretamentos de aeronaves associadas ao grupo de Vorcaro com destino ao Fórum de Lisboa. O documento também atribuiu a Gilmar Mendes decisões, no âmbito do caso Master e da própria CPI, que teriam tido o efeito de dificultar o acesso a informações sobre o Fundo Arleen — tema já registrado com mais detalhe no caso sobre Toffoli.

No mesmo dia 14 de abril de 2026, o colegiado da CPI rejeitou o relatório de Vieira por 6 votos a 4, depois da substituição de três integrantes horas antes da votação. O relatório é, portanto, a peça de um único parlamentar, não uma conclusão adotada pela comissão. Gilmar Mendes reagiu classificando o documento como uma “cortina de fumaça” sem base jurídica, acusou o relator de “má-fé intelectual” em nota publicada nas redes sociais e afirmou que um pedido de impeachment de ministros feito por relatório de CPI é juridicamente inexistente, por não seguir o rito da Lei 1.079/1950; o ministro também cobrou da Procuradoria-Geral da República uma apuração sobre o próprio relator por abuso de autoridade.

2026: edição menor em meio ao escândalo

Questionado em 26 de maio de 2026 sobre se o caso do Banco Master afetaria o Gilmarpalooza, Gilmar Mendes disse ao portal UOL: “não detectamos nenhum impacto”. A 14ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa ocorreu entre 1º e 3 de junho de 2026, na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, com tema “Nova ordem internacional, tecnologia e soberania” — mas, segundo reportagens, reuniu menos ministros do STF, integrantes do governo federal e governadores do que a edição de 2025, em meio à repercussão do caso Master. O ministro Alexandre de Moraes e a esposa, Viviane Barci, participaram do encerramento.

O diretor-executivo da organização Transparência Brasil, Bruno Brandão, classificou a participação de empresas com processos no STF no fórum como uma situação que configuraria conflito de interesse “em qualquer país civilizado do mundo, incluindo Portugal”. O advogado constitucionalista André Marsiglia foi além, ao afirmar que o patrocínio do evento por empresas privadas seria ilegal, por não poderem patrocinar ministros ou eventos a eles ligados, e que, caso o financiamento venha de recursos públicos, configuraria uso de dinheiro público sem interesse coletivo demonstrado.

O que ainda não está confirmado

Até a publicação deste caso, não há decisão do STF, do Conselho Nacional de Justiça ou de qualquer órgão de controle sobre o mérito das questões aqui descritas, nem resposta pública detalhada de Gilmar Mendes, do IDP ou do Fórum de Lisboa sobre as perguntas de financiamento e patrocínio enviadas por veículos de imprensa. Em síntese:

  • Documentado: o voo de Gilmar Mendes no jato operado pela Prime You em 1º de janeiro de 2025; a existência e a recorrência anual do Fórum Jurídico de Lisboa desde pelo menos 2017; a presença de representantes de empresas com processos no STF nas edições de 2024 e 2025; o total de US$ 11,5 milhões gastos por Vorcaro com eventos de autoridades no exterior em 2024, incluindo cerca de US$ 1,6 milhão em Lisboa, segundo apuração da PF citada pela imprensa; a rejeição, por 6 a 4, do relatório da CPI do Crime Organizado que citou os voos de Gilmar Mendes.
  • Negado ou contestado: Gilmar Mendes nega conhecimento do vínculo entre a empresa operadora do jato e Vorcaro, e nega qualquer impacto do caso Master sobre o Gilmarpalooza; o Fórum de Lisboa nega conflito de interesse na participação de empresas com ações no STF.
  • Não localizado nas fontes consultadas: uma explicação pública e discriminada de quem financia a estrutura do fórum ano a ano, e qualquer apontamento de que recursos do Banco Master tenham custeado especificamente a viagem ou a hospedagem de Gilmar Mendes em Lisboa.

O Observatório acompanhará eventuais novas revelações da Polícia Federal sobre o celular de Vorcaro, o andamento de representações sobre o tema no STF e no Conselho Nacional de Justiça, e a preparação de futuras edições do Fórum de Lisboa.

Fontes

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