Moraes, o bloqueio do X e o embate com Elon Musk
Moraes incluiu Musk num inquérito, suspendeu o X por 40 dias após a rede não indicar representante legal, bloqueou contas da Starlink por 'grupo econômico de fato' e, em março de 2026, arquivou a investigação contra o bilionário por falta de provas.
Apuração em andamento — nenhuma conclusão definitiva.
Linha do tempo
Michael Shellenberger publica os 'Twitter Files Brazil'; Musk amplifica críticas a Moraes nos dias seguintes
Moraes inclui Musk como investigado no Inquérito das Milícias Digitais (Inq. 4.874) e abre apuração por obstrução de justiça e incitação ao crime
Moraes reitera ordem de bloqueio de perfil e entrega de dados cadastrais (decisões de 23/7 e 8/8/2024), base da multa aplicada em 2025
X anuncia fechamento do escritório no Brasil e retirada da representação legal
Moraes reconhece 'grupo econômico de fato' entre X e Starlink para fins de responsabilidade solidária por multas
Moraes dá 24 horas para Musk indicar novo representante legal no Brasil, sob pena de suspensão
Moraes determina o bloqueio das contas bancárias e ativos da Starlink no Brasil
Moraes determina a suspensão do X em todo o território nacional e multa de R$ 50 mil/dia para uso de VPN para driblar o bloqueio
Bloqueio do X é efetivado por todas as operadoras de internet no Brasil
1ª Turma do STF confirma por unanimidade a suspensão do X
Starlink recua e anuncia que vai cumprir a ordem de bloqueio do X, após Anatel ameaçar apreender equipamentos da empresa
Moraes determina a transferência de R$ 18,35 milhões bloqueados de X e Starlink (R$ 7,28 mi e R$ 11,07 mi, respectivamente) para a União, com desbloqueio das contas após a quitação das multas
X indica a advogada Rachel de Oliveira Villa Nova Conceição como nova representante legal no Brasil
Moraes autoriza o retorno do X ao Brasil e determina à Anatel o desbloqueio em 24 horas, após pagamento de R$ 28,6 milhões em multas
X volta a funcionar no Brasil, após 40 dias de suspensão
Moraes determina pagamento imediato de multa de R$ 8,1 milhões contra o X por não fornecer dados cadastrais de perfil ligado a Allan dos Santos
Moraes determina o arquivamento do inquérito contra Musk, acompanhando parecer do procurador-geral Paulo Gonet
arquivamento por manifestação do Ministério Público Federal, com Moraes citando que a decisão é irretratável salvo novas provas — não é um julgamento de mérito sobre os episódios anteriores do caso, e sim o encerramento formal de uma frente investigativa específica
Entre abril de 2024 e março de 2026, o ministro Alexandre de Moraes foi o protagonista, do lado do Judiciário brasileiro, do mais longo e mais público embate entre o STF e uma plataforma de redes sociais: a suspensão de 40 dias do X (antigo Twitter) no Brasil, o bloqueio de contas bancárias da Starlink — outra empresa de Elon Musk — e uma disputa pessoal e pública entre o ministro e o bilionário que incluiu acusações recíprocas, ameaças de prisão, multas milionárias e, por fim, o arquivamento do inquérito que apurava a conduta de Musk. Este caso reconstrói a cronologia documentada do episódio e separa o que foi decidido judicialmente do que ficou no terreno da disputa pública entre as partes.
As origens: os “Twitter Files Brazil” e o inquérito das milícias digitais
Em 3 de abril de 2024, o jornalista americano Michael Shellenberger publicou uma série de mensagens internas de funcionários do Twitter/X sobre decisões judiciais brasileiras envolvendo a plataforma, batizada de “Twitter Files Brazil”. Musk amplificou o material e, nos dias seguintes, passou a publicar críticas diretas a Moraes, incluindo a alegação de que o Brasil estaria “à beira da ditadura” e a defesa pública do impeachment do ministro. Dias depois, Shellenberger recuou de uma de suas alegações mais graves — a de que Moraes teria ameaçado prender o representante legal do X no Brasil —, admitindo não ter provas da acusação.
Em 8 de abril de 2024, Moraes incluiu Musk entre os investigados no Inquérito das Milícias Digitais (Inq. 4.874), que apura a disseminação coordenada de desinformação e ataques às instituições, e abriu uma apuração paralela sobre possível obstrução de justiça, organização criminosa e incitação ao crime — citando declarações de Musk de que reativaria contas suspensas por ordem judicial, independentemente da decisão do STF. Para Musk e seus apoiadores, a medida era censura; para Moraes e o STF, tratava-se de resposta a ameaças públicas de descumprimento de ordens judiciais. O Observatório registra os dois argumentos sem adotar nenhum dos dois.
O estopim: representante legal, “grupo econômico” e a suspensão
Ao longo de 2024, o X também deixou de cumprir decisões específicas de bloqueio de perfis e de entrega de dados cadastrais — entre elas, ordens de 23 de julho e 8 de agosto contra um perfil associado ao blogueiro bolsonarista Allan dos Santos, que o X alegou não poder atender por não coletar dados cadastrais de usuários e por o perfil investigado não ter “vínculo técnico” com o Brasil. O STF rejeitou o argumento; essa pendência específica só seria convertida em multa (R$ 8,1 milhões) em fevereiro de 2025, já depois da reabertura da plataforma.
Em 17 de agosto de 2024, o X anunciou o fechamento de seu escritório no Brasil e a retirada de sua representação legal no país, citando a exigência do Código Civil brasileiro de que empresas estrangeiras mantenham um representante legal — e a ameaça anterior de Moraes de responsabilizar esse representante por eventual descumprimento de ordens judiciais. Em 24 de agosto, Moraes reconheceu a existência de um “grupo econômico de fato” entre X e a Starlink — outra empresa controlada por Musk, provedora de internet via satélite —, o que o levou a determinar, em 29 de agosto, o bloqueio de contas bancárias e ativos da Starlink no Brasil para garantir o pagamento de multas já aplicadas ao X.
Em 28 de agosto, Moraes deu 24 horas para que Musk indicasse um novo representante legal, sob pena de suspensão da plataforma. O prazo não foi cumprido e, em 30 de agosto, Moraes determinou a suspensão do X em todo o território nacional, com prazo de 24 horas para a Anatel executar o bloqueio técnico, além de multa diária de R$ 50 mil para pessoas físicas ou jurídicas que usassem VPN para driblar a suspensão. O bloqueio foi efetivado por todas as operadoras de internet em 31 de agosto. Em 2 de setembro, a 1ª Turma do STF confirmou a suspensão por unanimidade.
Os 40 dias fora do ar
A Starlink inicialmente sinalizou que não cumpriria o bloqueio de suas contas enquanto a decisão não fosse revista, chegando a retirar funcionários do Brasil. Recuou em 3 de setembro, depois que a Anatel ameaçou apreender o equipamento das estações terrestres da empresa no país — uma pressão regulatória concreta, não um convencimento quanto ao mérito jurídico da medida. Em 13 de setembro, com as multas já quitadas, Moraes determinou a transferência de R$ 18,35 milhões bloqueados das contas de X (R$ 7,28 milhões) e Starlink (R$ 11,07 milhões) para a União, liberando o restante dos ativos das duas empresas.
O X tentou ainda contornar o bloqueio técnico utilizando a rede da Cloudflare para manter o acesso disponível no Brasil, o que levou a nova multa. Em 20 de setembro, a plataforma indicou a advogada Rachel de Oliveira Villa Nova Conceição como nova representante legal no país. Depois de negociações sobre o valor total das multas acumuladas, o X pagou R$ 28,6 milhões, e Moraes autorizou o retorno da plataforma em 8 de outubro de 2024, determinando à Anatel o desbloqueio em 24 horas. O X voltou a funcionar no Brasil em 9 de outubro, após 40 dias de suspensão.
Depois da reabertura: a multa de 2025 e o arquivamento de 2026
A reabertura do X não encerrou as pendências entre a plataforma e o STF. Em 19 de fevereiro de 2025, Moraes determinou o pagamento imediato de uma multa de R$ 8,1 milhões — acumulada a partir das decisões de julho e agosto de 2024 sobre o perfil de Allan dos Santos, que o X nunca chegou a cumprir integralmente mesmo após o fim do bloqueio.
Em 10 de março de 2026, Moraes determinou o arquivamento do inquérito que apurava a conduta de Musk por obstrução de justiça e incitação ao descumprimento de ordens judiciais — a mesma frente aberta em abril de 2024. A decisão seguiu parecer do procurador-geral da República, Paulo Gonet, que concluiu não terem sido reunidas provas de “resistência deliberada da plataforma” em cumprir decisões do STF, atribuindo as falhas identificadas a “impropriedades técnicas, inerentes à gestão de uma rede de dimensões globais”. Na decisão, Moraes registrou que, tendo o Ministério Público pedido o arquivamento dentro do prazo legal, a manifestação é irretratável, salvo surgimento de novas provas.
O arquivamento encerra formalmente a apuração sobre a conduta de Musk no âmbito desse inquérito específico — não é, porém, um julgamento sobre o mérito do bloqueio do X em si (que não foi anulado nem revisto por nenhuma instância) nem sobre as multas já pagas, que não foram devolvidas. Até a publicação deste caso, não há registro de nova crise envolvendo X, Starlink e o STF desde o arquivamento de março de 2026.
Fontes
- Fonte primáriaPetição 12.404, pedido de reversão do bloqueio do X apresentado ao STF em agosto de 2024 (documento primário, PDF) — via Poder360
- Alexandre inclui Elon Musk no inquérito das milícias digitais após ataques — ConJur, 2024-04-08
- Moraes dá 24 horas para Musk indicar representante legal no Brasil — Agência Brasil, 2024-08-28
- Alexandre de Moraes determina bloqueio do X no Brasil — ConJur, 2024-08-30
- Brazil judge blocks Starlink accounts as X suspension deadline looms — Al Jazeera, 2024-08-29
- Por unanimidade, 1ª Turma do Supremo confirma bloqueio do X no Brasil — ConJur, 2024-09-02
- Musk's Starlink U-turns and says it will comply with judge's order to block X in Brazil — Euronews, 2024-09-04
- A cronologia da queda de braço entre X, Starlink e Moraes — Correio Braziliense, 2024-09
- Moraes bloqueia R$ 18 mi do X e Starlink, transfere dinheiro para União e libera contas — CNN Brasil, 2024-09
- STF determina transferência de R$ 18,35 milhões bloqueados da X e da Starlink para conta da União — Notícias STF
- Liberação do X: confira a cronologia da suspensão da rede social — Agência Brasil, 2024-10
- Brazil lifts ban on Musk's X, ending standoff over disinformation — Gulf News/AP, 2024-10
- Alexandre manda X efetuar pagamento imediato de R$ 8,1 mi por descumprir ordem — ConJur, 2025-02-20
- Moraes multa X em R$ 8 milhões por não fornecer dados de Allan dos Santos — Gazeta do Povo, 2025-02
- Moraes arquiva inquérito contra Elon Musk — Poder360, 2026-03-10
- Moraes atende Gonet e arquiva inquérito contra Musk por desobediência ao STF — O Tempo, 2026-03-10
- Corte Suprema de Brasil archiva caso contra Elon Musk — Agência Brasil (ES), 2026-03
- Como Musk se tornou pilar da discussão sobre liberdade de expressão no Brasil — Gazeta do Povo
- How the 'Twitter Files' spread disinformation on Brazil's Supreme Court — IJNet
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